Dom Orani: Família humana deve ser reflexo da Santíssima Trindade
quinta-feira, 13 agosto, 2009 às 17:15 | Publicado em Matrimônio e Família | 3 ComentáriosTags: Dom Orani João Tempesta, Família, filhos, Igreja, matrimônio, Semana da Família, teologia
RIO DE JANEIRO, quinta-feira, 13 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- No contexto da Semana da Família no Brasil, o arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, fez um convite a que as famílias humanas busquem ser como a família trinitária.
“Sendo a família humana uma instituição de origem divina, com semelhança da família trinitária, ela somente readquirirá a dignidade perdida quando voltar a ser o reflexo da família trinitária, na qual Deus não só é Pai, mas paternidade, Jesus Cristo não é apenas filho, mas filiação e o Espírito Santo, não é somente união, mas unidade”, afirma o arcebispo, em seu artigo semanal.
Segundo Dom Orani, a família, hoje, “para cumprir sua missão de promotora do bem-estar do ser humano, terá que cada vez mais ser poço de paternidade, berço da filiação e comunidade de amor”.
“É bom relembrar o compromisso solene do casamento cristão, que sempre é proclamado pelos noivos perante a comunidade eclesial: ‘Recebo-te por minha (por meu) esposa (esposo) e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida’.”
Vê-se, pois –prossegue o arcebispo–, “que o vínculo matrimonial que nasce do amor recíproco se exprime por esse juramento conjugal, que começa e se realiza diante da infinita majestade de Deus por aquele mesmo amor com que o Pai nos amou no seu Filho, Jesus Cristo, e nos santifica pelo Espírito desse Amor, que é o Espírito Santo”.
Dom Orani destaca que, ao celebrar a Semana Nacional da Família, a Igreja no Brasil “quer, uma vez mais, salientar a importância da família, que, talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura”.
“Por isso, é fundamental um olhar atento, dirigido com carinho, afeto e atenção à família, patrimônio da humanidade e tesouro dos povos”, escreve.
Segundo o arcebispo, “valorizando a família autêntica, de marido e mulher, com uma família bem estruturada, a Igreja no Brasil conclama a todos para que prossigam no objetivo pastoral de Evangelizar pela Família e para a Vida”.
“Quero convidá-los para que junto de sua esposa e filhos sejam cada vez mais comprometidos com a valorização de sua família, e para não medirmos esforços em protegê-la e defendê-la das grandes pressões externas.”
“Que a família brasileira seja respeitada como espaço privilegiado para a existência e a convivência humana”, deseja o arcebispo do Rio de Janeiro.
Fonte: Agência Zenit
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 8
sexta-feira, 29 fevereiro, 2008 às 8:59 | Publicado em Teologia do Corpo | Deixe um comentárioTags: amor, catolicismo, Família, Sexualidade, teologia, Teologia do Corpo, vida
O CELIBATO POR AMOR DO REINO E A REALIZAÇÃO PLENA DA SEXUALIDADE HUMANA
por Christopher West
“Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mt 19,12)
Um eunuco é alguém incapaz de ter relações sexuais. Assim, quando Cristo fala sobre eunucos desde o nascimento, ele está se referindo a pessoas que são incapazes da união sexual em decorrência de algum problema de nascença. Quando ele fala sobre aqueles que se tornaram eunucos pelas mãos de homens, ele provavelmente está se referindo àquelas tristes almas que caíram sob a lâmina da castração. Mas o que é um eunuco por amor ao Reino?
Coloque-se nos sapatos (ou sandálias) de algum dos descendentes de Abraão que tenha ouvido Cristo expressar estas palavras. Você soubia e compreendia desde a sua juventude que a promessa de Deus a seu pai na fé foi de torná-lo extremamente fértil, torná-lo pai de uma multidão de nações (Gn 17,2-6). De fato, cada vez que Deus estabeleceu uma aliança com seu povo, assim como foi com Adão (Gn 1,28), Noé (Gn 9,1), Jacó (Gn 35,10-12), ou Moisés (Lv 26,9), Deus os ordenou que fossem “férteis e se multiplicassem”.
O Reino de Deus seria estabelecido pela multidão dos descendentes de Abraão. De fato, o messias veio da linhagem de Abraão. Por isso, aqueles que não podem se relacionar sexualmente (isto é, eunucos), eram vistos como amaldiçoados por Deus, e até mesmo excluídos do “Reino”.
Todavia este Jesus está dizendo que alguns homens e mulheres perfeitamente capacitados para a união sexual podem, na verdade, escolherem se abster da união sexual durante suas vidas inteiras especificamente por causa do Reino dos céus. O QUÊ?!
As palavras de Cristo marcam uma virada decisiva na revelação de Deus. É muito difícil para os filhos e filhas de Abraão compreenderem tal decisão. Na verdade, muitos dos seguidores de Jesus ao longo da história também acharam a vocação do celibato difícil de compreender. Alguns, de fato, como Cristo parecia saber, não estariam aptos a “recebê-lo” enfim.
Matrimônio, Sexo e Celibato Estão Inter-relacionados
João Paulo II oferece-nos uma revigorada perspectiva sobre o significado do celibato pelo Reino em sua série de audiências gerais conhecidas como a “teologia do corpo” (TdC). Ele demonstra que, longe de desvalorizar a sexualidade e o matrimônio, o verdadeiro celibato cristão na verdade aponta para sua realização última. De fato, nós simplesmente não podemos compreender o sentido cristão do sexo e do matrimônio a menos que compreendamos o sentido cristão do celibato.
Matrimônio, sexo e a vocação do celibato estão muito mais inter-relacionados do que poderíamos pensar a princípio. Eles são também interdependentes. Quando cada um recebe a estima e o respeito devidos, o delicado equilíbrio entre eles é mantido.
Por outro lado, se algum dos três (matrimônio, sexo ou celibato) é desvalorizado, supervalorizado ou, ainda, desrespeitado, os outros inevitavelmente sofrem. Não é coincidência, por exemplo, que a revolução sexual traga, além de um surpreendente aumento do número de divórcios, também um surpreendente declínio no número de vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa. Também não é nenhuma coincidência que equívocos históricos sobre a vocação celibatária tenham levado a uma depreciação do sexo e do matrimônio.
Todos esses erros se originam da falha em equilibrar a tensão do paradoxo. Dizer que o celibato demonstra a satisfação plena da sexualidade não é uma contradição de termos. Isto é um paradoxo. Há algo que tortura a mente ao tentar reconciliar os (aparentemente) irreconciliáveis pólos do paradoxo. Portanto, para evitar o desconforto nós focamos num aspecto de uma verdade e acabamos por negar os outros.
Mas é precisamente pela insistente pressão da tensão do paradoxo que nós descobrimos a plena verdade. Nós precisamos encontrar nosso lar nessa tensão. Somente assim nós poderemos compreender devidamente a profunda inter-relação existente entre matrimônio, sexo e a vocação celibatária. Vamos pressionar.
O Reino, a Ressurreição e o Matrimônio
No capítulo 22 do Evangelho de Mateus (veja também Mc 12 e Lc 20), os saduceus, um grupo de judeus que não acreditavam na ressurreição dos mortos, vêm até Jesus com um enredo com o qual eles acreditaram que poderiam encurralar Jesus para que ele negasse a ressurreição também. Um homem possuía uma esposa e morreu. Um de seus irmãos a desposaram-na para para dar a seu falecido irmão uma prole, mas ele morreu também. Isto aconteceu de novo, e de novo, até que sete irmãos tivessem todos se casado com a mesma mulher, sucessivamente. Os saduceus então perguntaram a Cristo de quem ela seria esposa na ressurreição.
Cristo respondeu: “Errais não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição, os homens e mulheres não se casarão, e nem se darão em casamento…” (v. 29-30).
Para muitos, este ensinamento de Cristo soa amargo. Por quê? Porque nós não compreendemos nem as Escrituras e nem o poder de Deus. Se compreendêssemos, nos regozijaríamos nessas palavras. A instrução de Cristo não é uma desvalorização do matrimônio; pelo contrário, ela aponta para o propósito e sentido últimos deste maravilhoso sacramento.
O matrimônio nesta vida tem a função de prefigurar o céu onde, por toda a eternidade, nós celebraremos “as núpcias do Cordeiro” (Ap 19,7), o casamento de Cristo com sua Igreja. Este é o mais profundo desejo do coração humano – viver na eterna glória da comunhão com o próprio Deus. Por mais maravilhoso que o matrimônio e a intimidade conjugal possam ser nesta vida, é somente um sinal, um antegozo, um sacramento do que virá. O matrimônio terreno é simplesmente preparação para o matrimônio celeste.
É assim com todos os sacramentos. Eles nos preparam para o céu. Não há sacramentos no céu, não porque eles simplesmente acabarão, mas porque todos eles estarão realizados. Homens e mulheres não mais precisarão de sinais para apontá-los para o céu quando eles já estiverem lá no céu. Pense nisso como as placas indicativas de uma estrada. Se você estiver dirigindo em direção a São Paulo, você não vai mais precisar de placas indicando pra que lado fica São Paulo quando você já tiver chegado lá.
Os esposos às vezes questionam se isso significa que eles não ficarão juntos no céu. É claro que ficarão, se ambos aceitarem a proposta de casamento de Cristo, e viverem em fidelidade a Ele nesta vida. De fato, cada membro da raça humana que aceita o convite para a festa das núpcias celestes estará na mais íntima comunhão possível com todos os outros.
É a isto que chamamos de “comunhão dos santos”. Como o Catecismo diz, esta “será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação. …Os que estiverem unidos a Cristo formarão a comunidade dos remidos, ‘a cidade santa’ de Deus, ‘a Noiva, a esposa do Cordeiro’” (C.I.C., §1045).
Usando a imagem esponsal como uma analogia, nós podemos dizer que o plano de Deus desde toda a eternidade é “se casar” conosco (cf. Os 2,18). E este plano eterno foi prefigurado e revelado “desde o princípio” pela nossa criação como machos e fêmeas e nosso chamado para nos tornarmos “uma só carne”. O corpo humano possui um “sentido nupcial”, de acordo com João Paulo II, porque ele proclama e revela o plano eterno de amor de Deus – seu plano para a união nupcial entre homem e mulher e, de forma análoga, entre Cristo e a Igreja.
Como São Paulo diz, citando o Gênesis: “Por esta razão um homem deve deixar seu pai e sua mãe, e unir-se a sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne. Este é um grande mistério, eu quero dizer em relação a Cristo e a Igreja” (Ef 5,31-32).
Cristo deixou seu Pai no céu. Ele deixou a casa de sua mãe na Terra – para dar seu corpo para sua Noiva, e assim nós pudemos nos tornar “uma só carne” com ele e nos reerguemos para a vida da Trindade por toda a eternidade.
Como João Paulo diz, isto significa que “o matrimônio e a própria procriação não determinam definitivamente o sentido original e fundamental de ser um corpo ou de ser, como um corpo, macho e fêmea. O matrimônio e a procriação simplesmente dão uma realidade concreta a este sentido nas dimensões da história” (TdC, 13/01/1982). Assim como as “dimensões da história” são plenamente realizadas, assim também será o “sentido nupcial do corpo” plenamente realizado não somente pela união de um homem e uma mulher, mas na comunhão de todos os homens e mulheres unidos pela visão de Deus face a face (cf. TdC, 09/12/1981).
O Sentido Nupcial do Celibato
Somente tendo em vista esta realidade celeste nós podemos compreender corretamente a vocação do celibato como Cristo a desejou. Cristo não chama alguns de seus seguidores a abraçar o celibado por causa do celibato, mas “por amor do Reino”. O Reino é precisamente o matrimônio celeste. Em resumo, aqueles que escolhem o celibato estão “pulando” o sacramento, em antecipação à coisa real.
Homens e mulheres celibatários caminham além das dimensões da história – enquanto continuam vivendo dentro das dimensões da história – e de forma surpreendente declaram ao mundo que o Reino de Deus está aqui (Mt 12,28). O celibato cristão, portanto, não é uma rejeição da sexualidade e do casamento. É participação na verdade e no significado plenos da sexualidade e do casamento.
Ambas as vocações, de formas particulares, são a satisfação do chamado ao “amor nupcial” revelado através dos nossos corpos. Como João Paulo II diz: “No fundamento do mesmo sentido nupcial do ser como um corpo, macho ou fêmea, aí pode ser formado o amor que compromete o homem com o casamento por toda a sua vida, mas aí pode também ser formado o amor que compromete o homem com uma vida de continência por amor do Reino dos céus” (TdC, 28/04/1982).
Nós não podemos fugir ao chamado da nossa sexualidade. Cada homem é chamado a ser ambos: um marido e um pai; cada mulher é chamada a ser ambas: uma esposa e uma mãe – ou através do casamento, ou através da vocação celibatária. Em certo sentido, homens e mulheres celibatários se tornam “ícones” da Igreja; seu noivo é Cristo. E ambos dão à luz muitos filhos espirituais.
Assim, os termos noivo e noiva, pai (padre) e mãe (madre), irmão (frade) e irmã (freira), são aplicáveis ao matrimônio, mas também ao celibato. Ambas as vocações são indispensáveis na construção da família de Deus. As vocações se complementam, e uma demonstra o significado da outra. O matrimônio revela o caráter nupcial do celibato, e o celibato revela que o propósito último do matrimônio é preparar-nos para o céu.
Celibato: o “Maior” Chamado?
A história testemunhou algumas graves distorções daquele ensinamento de São Paulo quando este diz que aquele que se casa “faz bem”, mas aquele que não se casa “faz melhor” (1Cor 7,38). Isto leva alguns a ver o matrimônio como uma vocação de “segunda classe”, para aqueles que não conseguem “lidar” com o celibado. Isto também solidifica as suspeitas errôneas de certas pessoas de que o sexo é inerentemente sujo, e somente aqueles que se abstêm dele podem ser verdadeiramente “santos”.
Tais erros levaram João Paulo II a firmemente afirmar: “A ‘superioridade’ da continência sobre o matrimônio na autêntica Tradição da Igreja nunca significou menosprezo do matrimônio ou desdém quanto ao seu valor essencial. Ela não significa qualquer mudança que seja em direção ao maniqueísmo” (TdC, 07/04/1982). (Maniqueísmo é uma antiga heresia que vê as coisas do corpo como más, colocanto toda a ênfase nas realidades espirituais.)
O celibato é “melhor” ou “maior” que o matrimônio no sentido em que o céu é melhor ou maior que a Terra. O celibato, diferentemente do matrimônio, não é um sacramento do matrimônio celeste aqui na Terra. O celibato é um sinal da vida além dos sacramentos, quando nós estaremos unidos com Deus diretamente através do “Matrimônio do Cordeiro”.
De fato, eu acho um tanto infeliz o fato de definir esta vocação baseado no que ela implica em “desistir” em vez de definí-la em termos do que ela implica em “abraçar”. Uma boa parte das confusões poderiam ser evitadas se nós descrevêssemos a vocação celibatária como o “matrimônio celeste”, por exemplo.
É claro que poucos dos que escolhem seguir a vocação do celibato poderiam dizer que vivem o “céu na terra” todos os dias de suas vidas. O celibato antecede um grande bem, e isso exige sacrifício. Isso exige um sofrimento frutífero “por amor do Reino”.
Aqui se torna claro que a Igreja não mantém a vocação celibatária em tão grande consideração por acreditar que o sexo seja algo sujo. Ela mantém o celibato em tão grande consideração precisamente porque ela tem na mais alta consideração justamente aquilo que é sacrificado por amor ao Reino – a expressão sexual genital.
Se o sexo fosse algo sujo e dessacralizado, oferecê-lo como um dom a Deus seria um ato de sacrilégio (nós todos sabemos que não há nenhum mérito em abster-se do pecado na Quaresma, certo?). Mas, uma vez que o sexo é um dos mais preciosos tesouros que Deus deu à humanidade, fazer dele um dom, em retribuição a Deus, é uma das mais genuínas expressões de ação de graças (eucharistia) por um dom tão grande. O outro está recebendo-o das mãos de Deus e vivendo-o como a expressão da aliança conjugal.
Todos são chamados para uma vida de santidade pela resposta ao chamado ao “amor nupcial” estampado em seu corpo. Mas nem todos são chamados da mesma forma. “Cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7,7).
Cada pessoa deve responder ao dom que recebeu. Se alguém é chamado para o celibato, então ele não deve escolher o matrimônio. Se alguém é chamado para o matrimônio, então ele não deve escolher o celibato. A oração é importante para ajudar a discernir a vocação.
Celibato: Testemunho de Liberdade
A vocação celibatária também proporciona um testemunho muito necessário em nossos mundo saturado de sexo, para a realidade da liberdade humana. As próprias palavras de Cristo, “alguns se fazem eunucos a si mesmos”, demonstra o caráter voluntário desta vocação. Não é algo a que as pessoas são forçadas pela Igreja. É um dom livremente dado por Deus e livremente escolhido por alguns de seus seguidores.
Por quê as pessoas esterilizam ou castram seus animais de estimação? Porque os animais não podem dizer não ao seu impulso para acasalarem-se. E ao contrário do que as típicas novelas poderiam nos fazer acreditar, nós podemos.
Eis uma das principais diferenças entre animais e seres humanos – o dom e a responsabilidade da liberdade. Nós não somos compelidos pelo instinto. Nós podemos determinar nossas próprias ações. Nós podemos dizer “sim” a um determinado comportamento, ou nós podemos dizer “não”. Se não pudermos dizer não, então não somos livres.
A sociedade tem muito a dizer sobre “liberdade sexual”. Mas liberdade sexual, no senso popular, consiste na licença para praticar o sexo sem nunca ter que dizer não. Isto não é liberdade sexual. Isso é ser escravo da libido.
O homem ou mulher que escolhe abrir mão da expressão sexual genital “por amor do Reino” demonstra que ele ou ela não está escravizado(a) por uma libido incontrolável, mas é verdadeiramente livre – livre para amar a Deus e para amar aos outros em um dom de si mesmo comovente, e sem reservas. E devo acrescentar que este é um dom de si mesmo corporalsexual. e, nesse sentido,
Anjos não podem ser celibatários. Eles não possuem corpos. Eles não são seres sexuais. De fato, de acordo com João Paulo II, o verdadeiro impulso da vocação do celibato, como aquela do matrimônio cristão, é um desejo de viver a verdade da sexualidade, redimida e purificada em Cristo.
Deus nos deu o desejo sexual “no princípio”, de acordo com João Paulo, para que ele fosse a verdadeira força para amar à imagem de Deus através do sincero dom de si mesmo. É por isso que ele chama o impulso sexual de “um vetor de aspiração com o qual nossa completa existência se desenvolve e se aperfeiçoa” (Amor e Responsabilidade, pág. 46). De acordo com a revelação cristã, existem duas formas de atender a este chamado fundamental ao amor: matrimônio e celibato (cf. Familiaris Consortio, n. 11).
É claro que, devido ao pecado, o impulso sexual não surge em nós simplesmente como o desejo de se fazer dom sincero de si mesmo. Todos nós – solteiros, casados, celibatários consagrados – precisamos lutar contra as muitas desordens e confusões da concupiscência. Mas nossa esperança é revigorada quando percebemos, como João Paulo enfatiza, que o coração é mais profundo que a concupiscência, e Cristo “reativa aquela herança mais profunda e concede a ela poder real na vida do homem” (TdC, 29/10/1980).
Isso significa que através da progressiva conversão a Cristo, nós podemos experimentar uma “real e profunda vitória” sobre a concupiscência (TdC, 22/10/1980). Se nos abrirmos à obra da redenção, o Espírito Santo na verdade impregna nosso desejo sexual “com tudo que é nobre e belo”, com “o supremo valor que é o amor” (TdC, 29/10/1980). Através deste progressivo processo de transformação nós redescobrimos o plano original de Deus para o desejo sexual e somos habilitados para pôr tal desejo a serviço do marital ou celibatário dom de si mesmo.
Novamente e sempre precisamos enfatizar: a vocação celibatária não é uma rejeição da sexualidade. Além disso, celibatários consagrados não são condenados a viver uma vida de isolamento do sexo oposto. Se alguém aborda a questão desta maneira, de acordo com João Paulo II, este alguém não está vivendo de acordo com as palavras de Cristo (cf. TdC, 28/04/1982).
“A vida humana, por sua natureza, é ‘coeduativa’” (TdC, 08/10/1980). Com isso o Santo Padre quis dizer que os sexos precisam um do outro, e eles precisam aprender a amarem-se um ao outro adequadamente para que a vida humana mantenha sua devida dignidade e equilíbrio. Isto é uma verdade tanto para celibatários consagrados quanto para pessoas casadas.
Homens e mulheres tais como Francisco e Clara de Assis, João da Cruz e Tereza d’Ávila, e Francisco de Sales e Joana de Chantal, todos estes tiveram saudáveis, santas, íntimas e celibatárias relações um com o outro. Sim, isso é perfeitamente possível. E que testemunhas de liberdade estes santos são!
Se pensamos que isto é impossível – se nós imediatamente suspeitamos de “negócios suspeitos” acontecendo em tais relacionamentos – então nós podemos nos contar entre aqueles a quem João Paulo II rotula de “os mestres da suspeição”. Os mestres da suspeição não acreditam no dom e no poder da redenção. Uma vez que a escravidão à concupiscência é tudo que eles conhecem em seus próprios corações, eles a projetam para todos os outros.
Mas como o Papa insiste: “O homem não pode tirar o coração de um estado de contínua e irreversível suspeita devido às manifestações da concupiscência da carne e da libido… A redenção é uma verdade, uma realidade, em nome da qual o homem precisa se sentir chamado, e chamado com eficácia”. De fato, ele diz: “o sentido da vida é a antítese da interpretação ‘de suspeita’” (TdC, 29/10/1980).
O Celibado é Sobrenatural
São precisamente estes “mestres da suspeição” que sustentam que o celibato é o culpado pelos vários problemas sexuais do clero amplamente noticiados em nossos jornais. “O celibato é simplesmente anti-natural”, eles dizem.
Em certo sentido estas pessoas estão certas em dizer que o celibato não é natural. Como se diz, e como Cristo revela, ele é sobrenatural. É o celibato por amor do Reino. Ao chamar alguns para renunciar ao chamado natural para o matrimônio, Cristo estabeleceu um modo de vida inteiramente novo e, assim, demonstrou o poder da Cruz para transformar vidas.
Para aqueles que estão “presos” em uma visão decaída do impulso sexual sem qualquer conceito da liberdade para a qual nós somos chamados em Cristo, a idéia de uma longa vida celibatária é completamente sem sentido. Mas para aqueles que experimentaram a transformação do seu desejo sexual em Cristo, a idéia de fazer um completo dom de sua sexualidade para Deus não somente se torna uma possibilidade, ela se torna muito atrativa.
O celibato é uma graça, um dom. Uma minoria dos seguidores de Cristo são chamados a abraçar este dom. Mas, para aqueles a quem este dom é confiado, a eles também é concedida a graça para que sejam fiéis aos seus votos, assim como as pessoas casadas recebem a graça de serem fiéis aos seus.
Em ambas as vocações, as pessoas podem rejeitar, e acontece de rejeitarem, esta graça, e violar seus votos. Certamente na maioria das típicas dioceses católicas, há uma necessidade por uma maior franqueza a respeito das feridas sexuais e pelo desenvolvimento e promoção de ministros que tragam a cura de Cristo para os que precisam, incluindo padres. Mas a solução para a infidelidade conjugal e celibatária não é ceder à fraqueza humana e redefinir a natureza dos compromissos. A solução é apontar para a Cruz como fonte da graça que ela é, uma fonte da qual nós podemos beber gratuitamente e receber poder real para viver e amar da forma como fomos chamados para viver e amar.
Além disso, as estatísticas de desvio de conduta sexual entre os padres celibatários não é maior do que a dos clérigos casados em outras denominações cristãs. Simplesmente não há evidências de que permitir ao clero o casamento resolveria ou mesmo aliviaria este problema.
Há também um perigoso equívoco implícito na idéia de que o casamento seria a solução do escândalo sexual de alguns padres. O casamento não é uma uma “válvula de escape legítima” para desejos sexuais desordenados. Pessoas casadas, não menos que as celibatárias, precisam experimentar a redenção do seu desejo sexual em Cristo. Somente assim eles poderão se amar um ao outro à imagem de Deus. Se um homem assumisse um casamento com profundas desordens sexuais, ele estaria condenando sua esposa a uma vida não como pessoa, mas como objeto sexual.
O celibato não causa desvios sexuais. É o pecado que faz isso. O ato de se casar não cura, simplesmente, as desordens sexuais. Cristo cura. A única forma de se acabar com os pecados de escândalo sexuais (cometidos por padres ou outros) é as pessoas experimentarem a redenção de sua sexualidade em Cristo.
Conclusão
Em um mundo que perdeu o céu de vista, aqueles que são “eunucos por amor ao Reino” resplandecem para nós como um testemunho brilhante do destino último da vida humana. Eles testemunham aquilo que Santo Agostinho disse muito bem: “Tu nos fizeste para Ti, ó Deus, e nosso coração não descansa até que nos repousemos em Ti”.
Como aprendemos com a Teologia do Corpo de João Paulo II, o desejo sexual e o sentido nupcial do corpo são, no final das contas, plenamente realizados nas núpcias eternas do céu. Desta perspectiva se torna claro que toda a confusão sexual do nosso mundo é simplesmente o desejo humano pelo Céu, porém, um desejo desesperado, frenético.
Somente “desembaraçando” esta confusão sexual nós poderemos começar a compreender o plano de Deus para a união nupcial como uma revelação e prefiguração da visão beatífica. Somente então conseguiremos enxergar que o celibato pelo Reino, longe de desvalorizar a sexualidade, antecipa e participa em sua plena realização final.
Nota do autor: Eu ainda acrescento o seguinte:
O Celibato Não é Intrínseco ao Sacerdócio
Ao contrário da opinião de muitos, o celibato não é essencial para um sacerdócio válido. É somente uma disciplina sustentada na Igreja do Ocidente a fim de obedecer mais fielmente ao exemplo de Cristo, o qual foi, ele próprio, um celibatário.
Nós freqüentemente esquecemos, aqui no Ocidente, que há muitas Igrejas Católicas no rito oriental (ou seja, Igrejas do Oriente em plena comunhão com o Papa) que possuem padres casados. Eles não são uma categoria de padres católicos inferior aos padres de rito romano, os quais vivem um sacerdócio celibatário. Além disso, em alguns casos, padres casados de outras denominações (anglicanos, por exemplo) que se convertem ao catolicismo, podem ser ordenados como padres no rito romano, mesmo sendo casados.
Alguns recorrem às vantagens práticas de um clero celibatário para explicar a prática da Igreja Ocidental. Muitos pastores protestantes ou padres casados podem confirmar as dificuldades de se tentar pastorear seu rebanho e cuidar de suas famílias ao mesmo tempo. Como São Paulo diz, o celibato permite que a pessoa não fique “dividida” em seu serviço, mas seja capaz de dedicar-se inteiramente ao serviço da Igreja (1Cor 7,32-34). E ainda, sem questionar o valor prático do celibato, há uma razão profunda e teológica para a disciplina do celibato para o clero ocidental.
Cristo não se casou com uma mulher específica, porque ele veio para se casar com a humanidade inteira. A Igreja é sua eterna Noiva. Padres ordenados se tornam um sacramento de Cristo. Eles tornam o amor do Noivo Celeste eficazmente presente para a Igreja, particularmente no sacrifício Eucarístico. Agindo na pessoa de Cristo, os padres também “se casam” com a Igreja.
Este importante simbolismo é melhor compreendido quando um padre também não é casado com uma mulher em particular. Mas, mais uma vez, isto não é essencial. A Igreja poderia muito bem mudar a disciplina do rito latino em algum momento do futuro e isto não alteraria a natureza essencial da ordenação sacerdotal.
Um apontamento que ainda precisa ser feito é que, se a Igreja em algum momento mudar a disciplina do celibato para o clero ocidental, aqueles que já forem ordenados não poderiam se casar. O sacramento da Sagrada Ordem imprime uma marca indelével na alma do homem que o recebe. Esta marca consagra um homem ao serviço de Cristo e da Igreja na única forma que precede sobre a consagração do matrimônio.
Um homem que já for casado pode receber o sacramento da Sagrada Ordem (no rito latino eles são limitados ao diaconato), mas um homem solteiro que receber o sacramento da Sagrada Ordem não pode se casar depois. Mesmo um diácono permanente, se fica viúvo, não pode se casar novamente.
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Nota do tradutor: Eu achei que seria importante mencionar algo que o Christopher omitiu em seu texto: quando se fala em celibato, estamos falando de uma disciplina que a Igreja de rito romano impõe aos sacerdotes. Tal disciplina é absolutamente diferente do voto de castidade que é feito pelos religiosos e religiosas das diversas Ordens que existem na Igreja, como os agostinianos, franciscanos, beneditinos, dominicanos, clarissas, carmelitas, etc. Não obstante, muita gente confunde as duas coisas (celibato e voto de castidade).A diferença essencial entre um e outro é que, enquanto o celibato é uma disciplina inerente à função sacerdotal (e que, portanto, pode ser revogada pela Igreja), o voto de castidade é um voto pessoal, uma promessa íntima de sacrifício por causa do Reino. Por isso, mesmo na hipótese de que a Igreja, em algum momento, mude a disciplina do celibato sacerdotal, para os religiosos e religiosas os votos de castidade continuariam valendo. É suficientemente óbvio que isso jamais poderia mudar, pois o casamento é totalmente incompatível com a vida monástica, conventual, etc.
Tradução e adaptação: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo – Índice
segunda-feira, 25 fevereiro, 2008 às 9:07 | Publicado em Teologia do Corpo | 2 ComentáriosTags: catolicismo, Christopher West, Família, João Paulo II, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
Índice dos artigos de Christopher West sobre a Teologia do Corpo de João Paulo II, já traduzidos e publicados em português:
- O que é a Teologia do Corpo e por quê ela está mudando tantas vidas?
- Uma teologia básica do casamento
- A Teologia do Corpo e a Nova Evangelização
- Deus, sexo e bebês: o que a Igreja realmente ensina sobre paternidade responsável
- Uma resposta à crítica de Luke Timothy Johnson sobre a “desencorporada” Teologia do Corpo de João Paulo II
- Teologia do Corpo de João Paulo II: a chave para uma autêntica espiritualidade conjugal e familiar
- A fertilização in-vitro e a hermenêutica do dom
- O celibato por amor do Reino e a realização plena da sexualidade humana
Novos artigos são publicados a cada sexta-feira.
Paz e Bem!
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 7
sexta-feira, 22 fevereiro, 2008 às 9:09 | Publicado em Teologia do Corpo | 2 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Sexualidade, teologia, Teologia do Corpo, vida
A FERTILIZAÇÃO IN-VITRO E A HERMENÊUTICA DO DOM
por Christopher West
A “teologia do corpo” de João Paulo II demonstra que a chave para a correta interpretação da compreensão sobre quem é o homem e como ele deve levar sua vida, é a “dimensão do dom”. Na verdade, a realidade do “dom” determina “a verdade essencial e a profundidade do sentido” da dignidade original do homem perante Deus e perante toda a criação.[1]
Neste artigo eu irei resumidamente desdobrar a “hermenêutica do dom” de João Paulo II, e então aplicá-la à questão da fertilização in-vitro. Embora a imoralidade deste procedimento possa ser discutida sob várias perspectivas, eu gostaria simplesmente de demonstrar que a fertilização in-vitro (assim como todas as técnicas reprodutivas que substituem a relação conjugal como meio de concepção) é uma negação fundamental do “dom” e, como tal, uma traição fundamental à nossa humanidade. Desta forma nós abordamos os fundamentos mais profundos do magistério da Igreja a respeito da dignidade da vida em suas origens.
A Realidade do “Dom”
Primeiramente, antes de tudo, “o dom” se refere à transbordante troca de amor na Trindade que nos impulsiona – nós e todo o universo – à existência. “São Boaventura explica que Deus criou todas as coisas ‘não para aumentar sua glória, mas para mostrá-la e comunicá-la’, para Deus não há outra razão para criar senão seu amor e sua bondade”.[2]
Este é “o dom” – Deus criou o homem não na servidão, mas na liberdade para participar da bondade divina, da infinita troca de amor Dele próprio.[3] Como João Paulo nos diz, se “a criação é um dom para o homem, sua plenitude e mais profunda dimensão é determinada pela graça, isto é, pela participação na vida interior do próprio Deus, em Sua santidade”.[4]
Esta é suprema bem-aventurança do homem, e tudo que ele precisa fazer para vivê-la é se abrir para receber o dom. Quando ele o faz, seu coração é preenchido com gratidão por ter recebido um tão grande dom. Por isso, ele não deseja nada além de colocar sua liberdade a serviço do dom – primeiro, retribuindo o dom de amor a Deus em ação de graças (eucharistia), e então, repetindo tal dom, sendo para os outros o mesmo dom que a vida é para ele.
É por isso que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ele precisa de alguém com quem compartilhar o dom. Assim, a pessoa humana experimenta uma certa “solidão” como a única criatura do mundo visível capaz de “viver o dom”. Os animais não são “ajudantes” adequados sob esse aspecto.
Como o Papa expressa, “o homem surge no mundo visível como a mais elevada expressão do dom divino, porque ele conduz em si mesmo a dimensão interior do dom”.[5] Somente uma pessoa dotada com auto-determinação é capaz de receber “o dom” de Deus, retribuir tal dom (por exemplo, amando Deus em troca), e repetindo tal dom (por exemplo, compartilhando o amor de Deus com outros). Mas esta dignidade superior – este “dom” – concedido à pessoa humana também traz consigo uma responsabilidade especial. A liberdade pode ser abusada.
O Sentido Nupcial do Corpo
O termo “nupcial”, de acordo com o Santo Padre, “manifesta em uma palavra a total realidade daquela doação da qual as primeiras páginas do livro do Gênesis nos fala”.[6] O amor nupcial, portanto, é um amor de “total doação de si mesmo”. O homem experimenta seu chamado a repetir o dom divino desde o interior – do mistério invisível de sua alma espiritual. Porém, uma vez que o homem é uma unidade de corpo e alma, a “dimensão interior do dom” é confirmada exteriormente e visívelmente pelo sentido nupcial do corpo humano.
João Paulo II fala sobre uma “teologia do corpo” porque o “corpo, de fato, e somente ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Ele foi criado para transferir para a realidade visível do mundo, o mistério escondido desde os tempos imemoriáveis em Deus, e assim ser um sinal deste mistério”.[7] Em uma palavra, como nós temos aprendido, o mistério divino que o corpo simboliza é “dom”. “Isto é o corpo: um testemunho da criação como um dom fundamental, e assim um testemunho do Amor como a fonte da qual este mesmo presente brota”.[8]
O “sentido nupcial do corpo”, portanto, se refere à “capacidade que o corpo possui de expressar amor: precisamente aquele amor no qual a pessoa humana se torna um dom e – por meio deste dom – completa o verdadeiro sentido de seu ser e de sua existência”.[9] Aqui o Papa ressoa aquele texto chave do Concílio Vaticano II: “o homem somente pode descobrir completamente seu verdadeiro ser através da sincera doação de si mesmo”.[10] O que João Paulo quer estabelecer em sua teologia do corpo é que o que o Concílio ensina está enraizado não somente no aspecto espiritual da natureza humana, mas também em seu corpo.
O ser humano é uma “pessoa corporal”. Ele espelha o dom divino sendo um dom para os outros através do seu corpo. Agora as palavras do Gênesis 2,24 fazem sentido: “Por esta razão [ou seja, para repetir o dom divino] um homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”. É claro que a união conjugal não é a única maneira de “viver o dom”, mas a diferença sexual e nosso chamado à união são revelações primordiais do dom divino.
Em resumo, se diferença e união sexual são dadas por Deus como um dom, ela deve ser vivida como um dom através do qual todas as gerações recebem o maior dom, que é a própria vida. Este é “o sentido com o qual o sexo entra na teologia do corpo”.[11] Quando o homem desrespeita este sentido, ele remenda o verdadeiro “fundamento da vida humana”[12] e altera a “mais profunda base da ética e da cultura humanas”.[13]
O(A) Filho(a) Incorpora o Dom
O amor, é claro, é difuso de si mesmo, ou seja, ele se espalha. Ele procura aumentar seu próprio círculo de comunhão. Deus – que é amor – é uma Comunhão vivificante de Pessoas. A realidade infinita do “dom” na troca de amor Trinitária é, ao mesmo tempo, um mistério de “infinita geração”.[14] Embora essencialmente diferentes, a comunhão macho-fêmea em algumas formas ecoa o mistério divino de “dom-geração” na ordem criada.
Assim, em um formidável desenvolvimento do pensamento católico, João Paulo deduz que “o homem se torna ‘imagem e semelhança’ de Deus não somente através de sua humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que homem e mulher formam bem desde o princípio”. Isto “constitui, talvez, o mais profundo de todos os aspectos teológicos que podem ser ditos sobre o homem”. E o Papa acrescenta que em “tudo isto, bem desde o princípio, procede a bênção da fertilidade ligada à procriação humana”.[15]
O mistério não-criado Trinitário de “dom-geração” comunga com o mistério criado de homem e mulher de “dom-geração” mais tangivelmente na co-criação de um novo ser-humano. Neste momento, Dom e dom se encontram e concedem o maior de todos os dons – vida! Se eles forem fiéis às promessas que fizeram no altar, marido e mulher recebem tal dom amavelmente das mãos de Deus.
Sob esta luz, podemos entender a afirmação de João Paulo, de que “a procriação é enraizada na criação, e a todo momento, em certo sentido, reproduz seu mistério”.[16] Este é o mistério do “dom” – de amor e vida de Deus brotando para o homem. Por isso, “o terceiro” que surge da “união de dois” incorpora o dom.[17] Em certo sentido, o filho é a “uma só carne” que os esposos se tornam – o sinal vivo e respirante da doação esponsal.[18] E uma vez que a origem de tudo que existe é o amor auto-donativo da Trindade, quando os esposos se doam a si mesmos um ao outro em “uma só carne”, eles renovam o mistério da criação “em todo o seu poder original, profundo e vital”.[19]
O Pecado e “a Negação do Dom”
Através desta “hermenêutica do dom”, João Paulo diz que abordamos “a verdadeira essência da pessoa”.[20] De fato, o chamado a ser dom inscrito no sentido nupcial do corpo é “o elemento fundamental da existência humana no mundo”.[21] É por isso que o pecado – que é sempre uma afronta direta à “verdadeira essência da pessoa” – invariavelmente envolve a “negação do dom”.
Para ajudar-nos a compreender o funcionamento interno do pecado original, João Paulo indica o momento chave do diálogo entre a serpente e a mulher: “Você não vai morrer. Mas Deus sabe que quando você dela comer [da árvore] seus olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores o bem e o mal” (Gn 3,4-5). Satanás plantou no coração do ser humano a desconfiança em relação ao Criador. Como o Papa diz, esta tentação “claramente inclui o questionamento do Dom e do Amor, do qual a criação teve sua origem como dádiva”.[22]
Alguém pode ler a crítica da serpente da seguinte forma: “Deus não vos ama. Ele não quer que vocês sejam como Ele. Ele não tem nenhuma intenção de fazer uma doação de Sua vida para vós. Na verdade, Ele está justamente escondendo-a de vocês ao proibir-vos de comer desta árvore. Se vocês quiserem vida (felicidade), se vocês quiserem ser ‘como Deus’, vocês deverão alcançá-la e apanhá-la vós mesmos, pois é claro que Deus não lhes dará.”
O homem determina a intencionalidade de sua completa existência por uma das duas posturas fundamentais e incompatíveis: receptividade ou usurpação.[23] A postura que cada pessoa assume depende de seu conceito de Deus. Se Deus é Amor e o doador de todas as coisas boas, então tudo que precisamos fazer para alcançar a felicidade pela qual buscamos é ser receptivos. Nós confiamos que a disposição que Deus estabeleceu no universo é “para nós” e nós desejamos viver de acordo com ela. Por outro lado, se concebemos Deus como um tirano, então veremos a Ele e sua disposição do universo como uma ameaça à nossa felicidade, uma mudança na nossa postura natural de receptividade, e a procura de usurparmos a vida por nosso próprio intento.
É verdade, claro, que o ser humano também tem a tarefa de refletir a imagem de Deus tomando a iniciativa e desenvolvendo o mundo (“cultivá-la [a terra] e guardá-la”, Gn 2,15). Mas, como uma criatura, o homem somente se torna “semelhante a Deus” se primeiro receber esta semelhança de Deus. Em outras palavras, como uma criatura, a iniciativa própria do homem sempre procede de sua receptividade ao dom. Quando o homem desrespeita esta postura de receptividade – quando ele procura conduzir a vida a seu próprio intento, com suas próprias forças, distante desta receptividade – ele faz de si mesmo “semelhante a Deus”. Ele se aventura “através daquele limite que permanece intransponível ao desejo e à liberdade do homem como um ser criado”.[24]
Como o Catecismo explica, “seduzido pelo demônio, [o homem] quis ‘ser semelhante a Deus’, mas ‘sem Deus, antes de Deus, e em desacordo com Deus’”.[25] O homem se ergue como o iniciador de sua própria existência e da usurpação de sua vida. E como João Paulo enfatiza, o pecado consiste precisamente nisso – “na rejeição do dom e do amor que determina o início do mundo e do ser humano”. [26]
Fertilização In-Vitro e “o Ethos do Dom”
Uma vez que os filhos são “o supremo dom” do amor conjugal[27], é completamente natural o sofrimento dos esposos quando estes descobrem que não podem conceber. A que recursos um casal como esse poderia recorrer? Embora o desejo de superar a infertilidade seja certamente legítimo em si mesmo, é precisamente a “hermenêutica do dom” que nos ajuda a compreender “aquele limite que permanece intransponível ao desejo e à liberdade do homem como um ser criado”. [28]
Não obstante as boas intenções daqueles que lançam mãos de técnicas in-vitro, extrair os gametas humanos e tecnologicamente induzir a concepção de uma vida humana quebra a dinâmica do “dom”. Tal atitude rompe o “dom” entre Deus e o homem, entre o homem e a mulher, e entre os pais e os filhos. Vejamos.
João Paulo alcança o ápice de sua avaliação do amor conjugal quando ele descreve a vida conjugal como “litúrgica”[29]. A própria união conjugal destina-se a ser uma experiência de profunda comunhão com Deus, um ato de “veneração à majestade do Criador”[30]. Ela é destinada a expressar a receptividade do casal enquanto criaturas, a ação de graças diante de Deus, e sua reciprocidade e resumo do dom divino. Aqui, numa profunda cooperação do humano e do divino, Dom encontra dom e concede – ou, de acordo com seu próprio bem, não concede – o dom da vida.
Os esposos são certamente livres, ao repetir o dom, para tornar as condições para a concepção as melhores possíveis. Por isso, a Igreja não se opõe àquelas técnicas que assistem à união conjugal ajudando-a a alcançar seus fins naturais. Mas o casal jamais deve mudar sua postura da receptividade para a cobiça, a usurpação. Tão logo o fazem, eles “negam o dom” e se tornam “‘semelhantes a Deus’, mas ‘sem Deus, antes de Deus, e em desacordo com Deus’”.[31]
Consciente ou inconscientemente, aqueles que lançam mão da fertilização in-vitro demonstram que não estão satisfeitos em permanecerem receptivos diante do Único “Senhor e Doador da vida”. Uma vez que o Criador não concedeu o dom através de sua própria doação de si mesmos, eles procuram “tomar o dom”.
Os esposos que vivem o “ethos do dom” experimentam um “temor salvífico” de violar ou degradar alguma vez o “conteúdo religioso” e o sentido teológico de sua auto-doação mútua.[32] A união “numa só carne” fala de um “grande mistério” (cf. Ef 5,31-32) – o mistério humano-divino de “dom-geração”. A fertilização in-vitro nega este “grande mistério” pela usurpação da doação mútua dos esposos.
Removido pra longe dos arredores da união física e espiritual dos esposos, as técnicas in-vitro instrumentalizam a sexualidade humana. Ao invés de honrar o corpo e seu sentido nupcial, médicos, especialistas e os próprios esposos tratam seus corpos como objetos a serem minados em busca dos “materiais” necessários para a “produção” de um filho. Uma parte típica deste procedimento, é claro, é a masturbação masculina que em si mesma nega radicalmente o “dom” marital e a receptividade de sua mulher ao dom.
Além disso, embora haja muitos atos através dos quais um filho possa ser concebido (a união conjugal, o estupro, a fornicação, o adultério, o incesto, e vários procedimentos tecnológicos) somente um está em harmonia com a dignidade do filho como um “dom” divino. Desejar um filho não como fruto do amor conjugal, mas como o resultado final de um procedimento tecnológico, é tratar o filho como um produto a ser obtido, ao invés de um presente, um dom a ser recebido e uma pessoa a ser amada “por seu próprio intento”[33]. Tal postura cria – consciente ou inconscientemente – uma orientação despersonalizada a respeito do filho.
Produtos são sujeitos a controle de qualidade. Quando uma pessoa gasta algum dinheiro com uma nova TV, ela a quer em condições impecáveis. Ela não se importa com a TV, ele a tira da caixa “por seu próprio intento”. Se ela estiver defeituosa, ele a enviará para reembolso, ou trocará por uma nova. Igualmente, tal é a tentação, toda tão real, para um casal que está gastando milhares de dólares com uma fertilização in-vitro, de querer um “reembolso” ou uma “troca” do seu “produto” se ele for “defeituoso”.
A “negação do dom” inerente às técnicas in-vitro leva as pessoas a quererem não o bebê particularmente concebido “por seu próprio intento”, mas bebês em “condições impecáveis”, ou mesmo bebês “feitos sob demanda”. A única forma de garantir que cada filho é recebido como um dom divino é garantir que cada filho seja concebido como uma repetição do dom divino. Amor incondicional gera amor incondicional.
Conclusão
Nós aprendemos que a “dimensão do dom” é a chave para a interpretação da “adequada antropologia” de João Paulo II. Uma vez que o mistério do “dom” origina-se no próprio Deus, uma adequada antropologia precisa ser uma antropologia teológica. Por isso, uma vez que “o dom” está inscrito no corpo humano, uma adequada antropologia precisa ser uma “teologia do corpo”.
A proliferação da fertilização in-vitro é somente um sinal pelo qual vemos que grande parte do mundo moderno sofre de uma necessidade desesperada das catequeses revolucionárias de João Paulo II sobre o corpo humano. Muito mais está em jogo em questão de moralidade sexual e procriação do que a maioria aceita admitir. De fato, “as escolhas e as ações [de homens e mulheres] trazem à tona toda a dimensão da existência humana na união dos dois”[34]. Quando usurpamos a vida, nós morremos (cf. Gn 2,17). Quando nós recebemos o dom, o retribuímos, e o repetimos, nós realizamos “o completo sentido do [nosso] ser e existência”.[35]
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[1] Cf. João Paulo II, Audiência Geral de 2 de janeiro de 1980.
[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 293
[3] Cf. ibid, n. 221.
[4] Audiência Geral de 30 de janeiro de 1980
[5] Ibid, 20 de fevereiro de 1980
[6] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[7] Ibid, 20 de fevereiro de 1980
[8] Ibid, 9 de janeiro de 1980
[9] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[10] Gaudium et Spes, n. 24
[11] João Paulo II, Audiência Geral, 9 de janeiro de 1980
[12] João Paulo II, Ecclesia in America, n. 46
[13] João Paulo II, Audiência Geral, 22 de outubro de 1980
[14] Cf. João Paulo II, Mulieris Dignitatem, n. 18.
[15] Audiência Geral de 14 de novembro de 1979
[16] Ibid, 21 de novembro de 1979
[17] Cf. ibid, 12 de março de 1980.
[18] Cf. João Paulo II, Familiaris Consortio, n. 14.
[19] João Paulo II, Audiência Geral, 21 de novembro de 1979
[20] Ibid, 2 de janeiro de 1980
[21] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[22] Ibid, 30 de abril de 1980
[23] Para um excelente artigo sobre a natureza do pecado em relação à receptividade e cobiça, cf. Jean-Pierre Baput: “The Chastity of Jesus and the Refusal to Grasp” — A Castidade de Jesus e a Recusa da Usurpação (Communio, Spring 1997 pp. 5-13).
[24] João Paulo II, Dominum et Vivificantem, n. 36
[25] Catecismo da Igreja Católica, n. 398
[26] Dominum et Vivificantem, n. 35
[27] Cf. Gaudium et Spes, n. 50.
[28] João Paulo II, Dominum et Vivificantem, n. 36
[29] Cf. Audiência Geral de 4 de julho de 1984.
[30] Ibid, 21 de novembro de 1984
[31] Catecismo da Igreja Católica, n. 398
[32] Cf. ibid; cf. também 14 de novembro de 1984.
[33] Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n. 24
[34] João Paulo II, Audiência Geral, 27 de junho de 1984
[35] Ibid, 16 de janeiro de 1980
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Tradução e adaptação: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 6
sexta-feira, 15 fevereiro, 2008 às 5:37 | Publicado em Teologia do Corpo | 4 ComentáriosTags: catolicismo, Família, Sexualidade, teologia, Teologia do Corpo, vida
TEOLOGIA DO CORPO DE JOÃO PAULO II: A CHAVE PARA UMA AUTÊNTICA ESPIRITUALIDADE CONJUGAL E FAMILIAR
por Christopher West
O que é espiritualidade conjugal? Como a família pode se tornar autenticamente espiritual? Para João Paulo II, as respostas para estas questões “do espírito” são reveladas no corpo.
É isto que aprendemos com a “teologia do corpo”, de João Paulo II. Em sua coleção de 129 audiências pronunciadas no início de seu pontificado, João Paulo desenvolveu aquela que seria uma de suas mais permanentes contribuições para a Igreja e para o mundo.
Estabelecer uma autêntica espiritualidade conjugal é essencial para que possamos restaurar a família e construiur uma cultura de vida. Como podemos fazer isso? De acordo com o Santo Padre, “aqueles que desejam cumprir sua própria vocação humana e cristã no matrimônio são chamados, antes de tudo, a fazer desta ‘teologia do corpo’… a essência de sua vida e de seu comportamento” (02/04/1980).
Mais católicos estão ouvindo falar sobre a teologia do corpo. Entretanto, muito poucos sabem o que ela, na verdade, ensina. O propósito deste artigo é introduzir alguns dos temas da catequese de João Paulo, e esboçar os fundamentos para a construção de uma autêntica espiritualidade conjugal e familiar.
O Corpo: Revelação do Mistério de Deus
A tese do Papa, se nela nos aprofundarmos, é infalível em revolucionar nossa compreensão do corpo e da sexualidade humanos e, por conseqüência, o matrimônio e a vida familiar. “O corpo, e somente ele”, diz João Paulo, “é capaz de tornar visível aquilo que é invisível: o espiritual e divino. Ele foi criado para transferir para a realidade visível do mundo o mistério invisível escondido em Deus desde os tempos imemoráveis, e assim ser um sinal deste mistério” (20/02/1980).
Um palavreado um pouco difícil, eu sei. O que isto significa? Como criaturas físicas e corporais, nós simplesmente não podemos ver Deus. Ele é puro Espírito. Mas Deus quis tornar seu mistério visível para nós, e por isso Ele o estampou em nossos corpos, criando-nos como homens e mulheres à sua própria imagem (Gn 1,27).
A função desta imagem é refletir a Trindade, “uma comunhão divina inescrutável de [três] Pessoas” (14/11/1979). João Paulo assim conclui que “o homem se torna ‘imagem e semelhança’ de Deus não somente através de sua própria humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que homem e mulher formam desde o princípio”. E o Papa acrescenta: “Em tudo isso, desde ‘o princípio’, nos é dada a bênção da fertilidade vinculada à procriação humana” (ibid).
O corpo possui um “significado nupcial” porque ele revela o chamado do homem e da mulher para se tornarem dons um para o outro, um dom completamente concretizado através de sua união “em uma só carne”. O corpo também possui um “significado gerativo” que (ao desejo de Deus) traz um “terceiro” ao mundo, através de sua comunhão. Desta forma, o matrimônio constitui um “sacramento primordial” compreendido como um sinal que verdadeiramente comunica o mistério da vida e do amor Trinitários de Deus ao marido e à mulher, e através deles para seus filhos, e através da família para o mundo inteiro.
Espiritualidade conjugal, portanto, é isso: participar na vida e no amor de Deus e partilhar isto com o mundo. Embora este seja certamente um chamado sublime, ele não é etéreo. Ele é palpável. O amor de Deus é destinado a ser vivido e sentido na vida conjugal diária do casal e da família. Como? Vivendo de acordo com a completa verdade do nosso corpo.
“Na verdade, quão indispensável”, insiste o Santo Padre, “é o completo conhecimento do significado do corpo, em sua masculinidade e feminilidade, junto com a forma desta vocação! Quão necessária é uma precisa formação sobre o significado nupcial do corpo, sobre seu significado gerativo – uma vez que tudo que constitui a vida dos casais precisa constantemente descobrir sua completa e pessoal dimensão na vida a dois, no comportamento, nos sentimentos!” (02/04/1980).
Espiritualidade Encarnada
Uma das maiores ameaças enfrentadas pela Igreja hoje é um “espiritualismo” no qual as pessoas desencarnam seu apelo à santidade. Viver uma vida espiritual não significa de maneira nenhuma rejeitar nossos corpos. A autêntica espiritualidade é sempre uma espiritualidade encarnada.
Esta é a verdadeira “lógica” do cristianismo. Deus nos comunica Sua vida “no” e “através do” corpo; “em” e “através do” Verbo tornado carne. O espírito que nega esta “realidade encarnada” é aquele do anticristo (cf. 1Jo 4,2-3).
Pense nisso por um momento. João Paulo nos ensina que o corpo humano – na beleza da diferença sexual e do nosso chamado à união sexual – possui uma “linguagem” inscrita por Deus que não somente proclama Seu mistério infinito, mas torna tal mistério presente para nós. Se há um inimigo de Deus que queira manter-nos longe da vida e do amor de Deus, onde, então, ele iria fazer isto?
O objetivo de Satanás é confundir a linguagem dos nossos corpos! E veja quanto sucesso ele tem tido. Por causa do plano de Satanás, a maioria de nós somos ignorantes em ler a linguagem do corpo. Quantos de nós, por exemplo, consideram nossos corpos como o último lugar onde poderíamos procurar pela revelação do mistério de Deus?
Construindo uma Autêntica Espiritualidade
A fim de construir uma autêntica espiritualidade conjugal, portanto, precisamos começar por aprender a ler a verdadeira linguagem do corpo. Precisamos interceder pelos nossos olhos, para que enxerguem o mistério de Deus revelado através dos nossos corpos e através da própria união conjugal. É o pecado que nos cega: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida (1Jo 2,16).
Ao falar sobre o amor entre homem e mulher, precisamos combater primordialmente a concupiscência da carne. O casamento de maneira nenhuma “legitima” a concupiscência. Homens e mulheres são chamados pelo poder do Espírito Santo a experimentar uma vitória “real e profunda” sobre a concupiscência. Através da “redenção dos nossos corpos”, o Espírito Santo fecunda o desejo sexual “com tudo que é nobre e belo”, com “o supremo valor que é o amor” (22 e 29/10/1980).
É assim que maridos e esposas constroem uma autêntica espiritualidade: amando um ao outro de acordo com o Espírito Santo “em” e “através de” seus corpos. O amor conjugal é mostrado de várias formas, mas os esposos preenchidos pelo Espírito concretizam “dentre as possíveis manifestações de afeto, aquela singular, ou antes, excepcional significância do ato [conjugal]” (21/11/1984). Eles chegam à compreensão de que sua união sexual “carrega em si mesma o sinal do grande mistério da criação e da redenção” (14/11/1984). Em uma palavra, eles chegam à compreensão de que sua união é “Eucarística”.
Quando recebemos a Eucaristia dignamente, ela traz nova vida para nossas vidas. Quando a recebemos indignamente, nós comemos e bebemos nossa própria condenação (1Cor 11,29). Da mesma forma, quando os esposos abrem sua união ao Espírito Santo, todo o seu matrimônio carrega continuamente nova vida no Espírito. Porém, se os esposos fecham sua união ao Espírito, eles corroem a realidade completa de sua vida matrimonial e familiar.
Uma das formas primárias pelas quais podemos nos manter abertos ao Espírito, é permanecendo abertos aos filhos. Quem é o Espírito Santo senão o Senhor e Doador da Vida? Aqueles casais que fecham sua união aos filhos, ao mesmo tempo fecham sua união ao Espírito Santo. Sua união não é mais um sinal do amor Trinitário de Deus, mas na verdade, torna-se um contra-sinal dele.
É por isso que João Paulo diz que “a antítese da espiritualidade conjugal é constituída, em certo sentido, pela subjetiva carência desta compreensão [da dignidade do ato conjugal] o qual está relacionado com a prática e a mentalidade contraceptiva” (ibid).
Para aqueles que estão preenchidos com o Espírito Santo, a contracepção é simplesmente inconcebível. Eles sabem que ela é uma mentira, que toma o lugar da verdadeira linguagem do corpo. E mentir, dentro do coração da intimidade conjugal, tem um efeito ruim, que não existiria se falasse a verdade. Os esposos que se esforçam por “falar a verdade” no enlace nupcial se esforçam por serem abertos e honestos um com o outro na totalidade de sua vida como casal.
Como o professor Mary Rousseau expressa, quando os esposos vivem uma autêntica espiritualidade, “o amor que acontece em sua cama conjugal se propaga… para a cozinha, para o jardim, para o supermercado, para o local de trabalho, e para além. Seu amor eventualmente se propaga para todo o mundo, para os campos da política, do trabalho, da educação, do entretenimento, da saúde, das relações internacionais. Tal é o exato processo pelo qual a civilização do amor vem à tona” (Chicago Studies, Vol 39:2, pág. 175).
Conclusão
É por isso que, de acordo com João Paulo II, educar-se na teologia do corpo “constitui… o núcleo essencial da espiritualidade conjugal” (03/10/1984). Esta educação é um chamado como um toque de trombeta, não para nos tornarmos mais “espirituais”, mas para nos tornarmos mais encarnados – a permitir que o Espírito Santo impregne nossos corpos com vida divina.
É isto que acontece nos sacramentos. A Eucaristia e a Confissão, em particular, são os meios “infalíveis e indispensáveis”, diz João Paulo, “para formar a espiritualidade cristã da vida familiar e conjugal. Com eles, aquele essencial e espiritual ‘poder’ criativo de amor alcança os corações humanos e, ao mesmo tempo, os corpos humanos… Este amor, na verdade, permite a construção da vida completa dos casais de acordo com aquela ‘verdade do sinal’, por meio do qual o matrimônio é fortalecido em sua dignidade sacramental” (03/10/1984).
Através desta “dignidade sacramental” esposos e famílias participam no mistério da Trindade e proclamam tal mistério para o mundo em uma “espiritualidade encarnada”.
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Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 5
sexta-feira, 8 fevereiro, 2008 às 10:18 | Publicado em Teologia do Corpo | 3 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
UMA RESPOSTA À CRÍTICA DE LUKE TIMOTHY JOHNSON SOBRE A “DESENCORPORADA” TEOLOGIA DO CORPO DE JOÃO PAULO II
Por Christopher West
Eu descobri a teologia do corpo (TdC) de João Paulo II no início dos anos 90. Como um católico que rejeitou os ensinamentos sobre sexualidade da Igreja porque achava-os antiquados, a TdC do Papa foi uma revolução para mim. Ela abriu meus olhos para a beleza e o esplendor de uma autêntica compreensão católica do sexo. Eu sabia que ela tinha o potencial para mudar a Igreja e o mundo – se as pessoas estivessem simplesmente aptas (e dispostas) a “absorver” o que o Papa dizia.
Eu também sabia que eu passaria o resto da minha vida estudando a TdC e compartilhando-a com o mundo. Agora eu viajo nacional e internacionalmente palestrando sobre a TdC de João Paulo II. Onde quer que eu fale, eu vejo vidas serem transformadas por esta mensagem. Quando os ensinamentos do Papa são proclamados como boas novas que são, os cegos recuperam a visão, e os cativos são libertados.
Sim, a TdC já começou o que está sendo chamado de contra-revolução sexual. Mas, infelizmente, a julgar por seu artigo “A Disembodied ‘Theology of the Body’” – Uma ‘Teologia do Corpo’ Desencorporada – (Commonweal, 26 de janeiro de 2001, págs. 11-17) é uma revolução que Luke Timothy Johnson não compreende, ou para a qual ele não está pronto, ou a qual ele não deseja.
Prepare-se, Luke Tiomthy Johnson! Ela está se difundindo! E nada pode pará-la! É como a revolução que trouxe a queda do comunismo. Ela se inicia lentamente, silenciosamente, nos bastidores dos corações humanos – corações que estejam abertos para ouvir a verdade que este Papa Polonês proclama sobre a pessoa humana. Então ela se expande e se difunde de coração em coração reunindo uma grande multidão que vislumbra sua verdadeira dignidade e não irá descansar até que as correntes das ideologias desumanizadas (política, sexual, ou qualquer outra) sejam quebradas.
Johnson divide sua crítica à TdC em três tópicos: Observações Preliminares; O Quê o Papa Omite; e Revisitando a Humanae Vitae. Eu irei seguir o caminho de Johnson e dividir minha resposta ao seu artigo nos mesmos três tópicos, com alguns sub-tópicos adicionais.
OBSERVAÇÕES PRELIMINARES
A primeira coisa que identifiquei ao ler o artigo de Johnson é que ele simplesmente não penetrou no projeto do Papa. Para qualquer pessoa para a qual o conteúdo da TdC seja familiar, os comentários de Johnson são como uma pedra lisa saltando sobre a superfície de um profundo lago, mas nunca “se afundando”.
Ele se gaba te ter “dedicado um tempo considerável (e tão consciente quanto pôde) lendo as 423 páginas da coletânea de conferências”. Admitidamente, isto é um feito. Poucos têm tempo para dedicar-se a essas densas audiências. Portanto eu lhe dou crédito por isso. Mas, em termos leigos, ele simplesmente não “pegou” a coisa.
A Necessidade de Uma Mudança de Paradigma
A TdC nos chama a um olhar mais profundo para dentro de nossos próprios corações, a um olhar para nossas feridas e cicatrizes do passado, para nossos desejos desordenados do passado. Se formos capazes de fazê-lo, descobriremos que o plano original de Deus ao criar-nos homem e mulher continua “ecoando” dentro de nós. Vislumbrando aquela “visão original”, quase podemos sentir a experiência original da integridade e liberdade corpórea – de estar nu sem sentir vergonha. E nós começamos a perceber um plano tão grandioso para nossa sexualidade, tão maravilhoso, como raramente nossos corações poderiam absorver.
Mas tirar-nos “de trás das folhas de figueira” é, por assim dizer, bem difícil. É preciso uma mudança de paradigma radical. É preciso que reconheçamos que a forma como homens e mulheres se relacionam hoje em dia – e que normalmente consideramos “normal” – é muito freqüentemente baseada na perda da graça original da nossa criação.
Nós não gostamos de qualquer tipo de mudança. Por isso, nós não gostamos de mudanças de paradigmas. Nós gostamos é da vida como a conhecemos – mesmo com seus sofrimentos e suas desilusões. Portanto nossa resposta comum é: “Não, muito obrigado”.
Se alguém aborda da TdC sem estar predisposto a deixar pra trás a “vida como ele ou ela a conhece”, tal pessoa não conseguirá obter a totalidade da revolução que a TdC proporciona. O próprio Cristo, ao falar sobre a união “em uma só carne” do matrimônio, nos chama de volta para o plano original de Deus (cf. Mt 19, Mc 10). Cristo vem nos restaurar à pureza das nossas origens (cf. C.I.C. §2336). Ele vem proclamar a boas nova aos pobres, dar visão aos cegos, e liberdade aos cativos (Lc 4).
A tragédia é que – por falta de conhecimento, de experiência ou de qualquer outra coisa – nós temos uma tendência para “justificar” nossa pobreza, nossa cegueira e nossa escravidão. E dessa forma, deixamos escapar a totalidade da boa nova do Evangelho. Da mesma forma, deixamos escapar a totalidade da revolução da TdC de João Paulo II se justificarmos a experiência comum que temos em nossos corpos e em nossa sexualidade em um mundo decaído.
Se quisermos compreender o sentido da sexualidade como Deus a criou e determinou, precisamos penetrar nas experiências vividas pelo primeiro homem e pela primeira mulher antes do pecado ter distorcido sua relação. Este é o presente da TdC. João Paulo II, se estivermos dispostos a ir com ele, nos tira detrás das folhas de figueira e nos capacita a contemplar o plano original de Deus para a sexualidade com claridade e discernimento sem precedentes.
De Qual Experiência Nós Estamos Falando?
Uma das principais críticas de Johnson sobre a TdC é que João Paulo II permanece “no nível da abstração” e “parece nunca olhar para a real experiência humana”. Eu considero isso totalmente irônico uma vez que a principal crítica apontada contra a TdC pelos tomistas modernos é que João Paulo II (apesar de seu fundamento permanecer tomista) faz um apelo muitíssimo explícito à experiência humana. Surpresa!
Johnson também afirma que “pronunciamentos solenes são feitos com base na exegese textual, e não na experiência de vida”. Eu considero isso duplamente irônico, uma vez que o Papa tomou fontes sérias dentre vários estudiosos bíblicos na tentativa de vincular a revelação bíblica e a experiência humana.
João Paulo II afirma em sua própria defesa: “Na interpretação da revelação sobre o homem, e especialmente sobre o corpo, precisamos, por razões compreensíveis, recorrer à experiência, uma vez que o homem corpóreo é percebido por nós principalmente pela experiência” (TdC, 26/09/1979). Na segunda nota de rodapé deste mesmo discurso, João Paulo insiste que nós temos um direito de falar sobre a relação entre a experiência e a revelação. Sem isso, nós somente ponderamos “considerações abstratas ao invés do homem como um sujeito vivente”.
Mas de qual “experiência humana” estamos falando? Johnson está falando sobre as “sujas, grosseiras, inadequadas, atrativas, casuais e, sim, tolas” experiências do corpo e da sexualidade. Que fino! Nós todos podemos nos referir a tais experiências e aprender com elas. E penso que Johnson está certo em dizer que a sensualidade “está mais para matéria de humor do que de solenidade”. (Eu me lembrei agora da quantidade de “católicos devotos” que vieram às minhas palestras ou ouviram meus áudio-tapes e se sentiram ofendidos por meu próprio “senso mundano de humor-corporal”. Minha resposta? Relaxa um pouquinho.)
João Paulo está falando de experiências do corpo e da sexualidade muito mais profundas do que podemos ver na superfície. Se seguirmos aquelas experiências “sujas, grosseiras e inadequadas” do corpo de volta até suas origens, descobrimos o lado extraordinário do ordinário (cf. TdC, 12/12/1979). Mas para chegarmos lá, precisamos de alguma forma atravessar o limiar das falhas que herdamos. Assim, e somente assim, seremos capazes de ter uma visão ampla de tudo o que o projeto da TdC envolve.
O Problema Principal
Este é o principal problema da avaliação de Johnson sobre a TdC. Ele nunca atravessa aquele limiar. Ele nunca faz a mudança de paradigma. Ele avalia o que o Papa está dizendo enquanto permanece com o pensamento imerso na “sombra” de uma visão anormal e decaída do corpo e da sexualidade, visão esta que ele parece preferir justificar, enxergar como normal.
É trágico que mesmo um brilhante estudioso bíblico como Johnson não deixe que o dom da redenção o anime totalmente e transforme sua visão da sexualidade. Que esperança temos quando percebemos, como João Paulo enfatiza, que o coração é mais profundo do que as distorções da luxúria, e Cristo “reativa aquela herança mais profunda, e lhe dá poder real na vida do homem” (TdC, 29/10/1980).
Johnson propõe a questão: “Uma ‘teologia do corpo’ genuína não deveria começar com uma postura de atenção receptiva ao corpo, e aprendendo com ele?”. João Paulo responderia: “Absolutamente, sim”. Mas o ponto de partida para aprender com nossos corpos é a revelação de Deus, e a experiência do homem e da mulher antes do pecado. Johnson, por sua vez, usa como ponto de partida a experiência do homem e da mulher já afetados pelo pecado, e aparentemente “empacados” por ele.
Desta perspectiva, parece para Johnson que o Santo Padre observa a sexualidade humana “com um telescópio, de um planeta distante”. Trancado em sua visão decaída e incapaz de atravessar o limiar de volta “às origens”, Johnson não consegue ligar-se ao que o Papa está dizendo. Ele não ouviu, em seu próprio coração, aqueles “ecos” da experiência original do corpo. Assim, o efeito da análise de João Paulo para Johnson “é algo como um pôr-do-sol pintado sem ser visto”.
A ironia aqui é estranha. É Johnson quem está oferecendo uma análise e uma crítica de algo que ele não consegue enxergar. Johnson é, de fato, o homem cego dizendo ao Papa, um homem com visão, que ele não sabe o que está falando; Johnson não consegue enxergar a experiência original do corpo, mas o papa consegue, e enxerga. Assim, o efeito da análise de Johnson sobre a TdC é, na verdade, “algo como um pôr-do-sol pintado sem ser visto”.
Leitura Apressada
Johson alega que o Papa “minimiza as contradições internas manifestas ao longo das conferências. Por exemplo”, ele diz, “em 1º de outubro de 1980, o Papa declara que um marido não pode ser culpado de ‘adultério em seu coração’ por sua mulher, mas uma semana depois, na conferência de 8 de outubro, ele afirma com segurança que mesmo os maridos podem pecar dessa forma”.
Entretanto, Johnson interpreta totalmente mal o que o Papa está dizendo em 1º de outubro de 1980. João Paulo apresenta a típica interpretação das palavras de Cristo sobre o adultério no Sermão da Montanha – de que estas palavras não se aplicam à forma como um homem olha para sua própria mulher. O Santo Padre mesmo admite que esta interpretação “possui todas as características de uma objetiva correção e precisão”.
Mas ele imediatamente acrescenta que permanece “boa margem para dúvidas” sobre se esta interpretação está correta. Em outras palavras, ao contrário da alegação de Johnson, o Papa não tem culpa da distorção de uma semana para a outra. Em 1º de outubro, ele simplesmente mencionou a interpretação que ele iria refutar no dia 8 de outubro. Isso deveria estar bem claro para qualquer leitor que estivesse tentando compreender a linha de raciocínio do Papa.
Johnson conclui que há sérias contradições internas ao longo das audiências sobre a TdC. Eu gostaria de encorajá-lo a fazer uma nova leitura da TdC – uma leitura justa – e perguntá-lo, então, se ele faria a mesma alegação. Eu li a totalidade das audiências da TdC provavelmente sete ou oito vezes com intensa investigação e estudo, e nunca me deparei com nenhuma das “manifestas contradições internas” alegadas por Johnson.
Aqui está um outro indício de que Johnson tenha feito uma leitura apressada das audiências. Johnson critica João Paulo repetidamente usando a frase “teologia do corpo” mas não examinando as implicações de outras incorporações além da sexualidade. Johnson então cita alguns exemplos desta carência no projeto de João Paulo, tais como a disposição de posses materiais, nossas relações com o ambiente, e o sofrimento.
Johnson corretamente enxerga as implicações da teologia do corpo para estas outras áreas da vida. E se tivesse prestado mais atenção às suas leituras das audiências, ele teria enxergado que João Paulo é o primeiro a admití-las. O Papa esclarece isso inteiramente nos breves comentários de seu pronunciamento final, dizendo que o escopo de seu projeto foi simplesmente refletir sobre a redenção do corpo no que se aplica à sacramentalidade do matrimônio.
“De fato”, o Santo Padre enfatiza, “nós precisamos imediatamente observar que o termo ‘teologia do corpo’ vai muito além do conteúdo das reflexões que fizemos. Estas reflexões não incluem vários problemas que, a respeito de seus objetos, pertencem à teologia do corpo (como, por exemplo, o problema do sofrimento e da morte, tão importante na mensagem bíblica). Nós precisamos deixar isso bem claro”, diz o Papa (TdC, 28/11/1984).
E preciso acrescentar que João Paulo passou o tempo restante de seu pontificado aplicando sua teologia do corpo àqueles outros temas tratados em suas numerosas cartas apostólicas e encíclicas (ver em particular suas encíclicas sociais, Laborem Exercens, Sollicitudo Rei Socialis, Centisimus Annus, e sua Carta Apostólica Sobre o Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Salvifici Doloris).
O QUE LUKE TIMOTHY JOHNSON OMITE
Tese de João Paulo II
A omissão mais patente na crítica de Johnson à TdC é a tese do projeto do Papa. Ele nunca a menciona. Ele nunca a resume. Ele sequer discute os principais temas da TdC. Enquanto Johnson parece feliz em afirmar que a TdC do Papa “é fundamentalmente inadequada para a questão que ela levanta”, ele nunca levanta a questão que a TdC levanta.
Johnson diz que a TdC “simplesmente não trata sobre o que mais deveria ser tratado em uma teologia do corpo. Por causa de sua insuficiência teológica”, ele continua, “o ensinamento do Papa não responde adequadamente às inquietações daqueles que procuram uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade humana…”.
Mas isto leva a uma questão que Johnson nunca responde. O que é uma teologia do corpo? O que é uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade humana? Ao contrário do que Johnson afirma, o Papa responde a essas questões – com riqueza de detalhes e com profunda inspiração.
Nós nos deparamos com a declaração desta tese de João Paulo em sua audiência de 20 de fevereiro de 1980. “O corpo, de fato, e somente ele”, diz o Papa, “é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e divino. Ele foi criado para refletir na realidade visível do mundo, o mistério invisível escondido em Deus desde os tempos imemoriáveis, e ser assim um sinal deste mistério”.
O corpo é sacramental, revelador do mistério da criação e do mistério do Criador. De acordo com o Santo Padre, o corpo humano – através da realidade da diferença sexual e nosso chamado à união sexual – possui uma “linguagem” inscrita por Deus que proclama seu próprio mistério infinito e torna tal mistério presente, visível, experimentável em nosso mundo.
O que é este mistério escondido em Deus desde toda a eternidade? É o mistério do plano de Deus para unir todas as coisas em Cristo (Ef 1,10). Resumidamente (como se fosse possível resumir Deus…), é o Amor e a Vida Trinitária de Deus, e seu maravilhoso plano para que nós participemos nesse Amor e nessa Vida através de Cristo, como membros da Igreja.
É isto que o “grande mistério” da união “em uma só carne” simboliza e revela – o “grande mistério” da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,31-32). E é isso que João Paulo quer dizer, fundamentalmente, ao falar sobre uma teologia do corpo.
Isso não significa que Deus seja sexual. Mas significa que nossa sexualidade revela algo do mistério da vida íntima de Deus e Seu plano para conceder que participemos da natureza divina (2Pe 1,4).
Uma teologia do corpo, neste sentido, é de difícil absorção para muitas pessoas. Ela é quase sempre grandiosa demais. Como algo tão “mundano” quando o corpo poderia ser o meio de revelação de algo tão celestial? Mas tudo isso vêm à luz na incorporação do próprio Deus: o Verbo feito carne. E, como Cristo diz, isto é algo que precisamos absorver – literalmente – se quisermos mesmo ter vida em nós (Jo 6,53).
Como João Paulo afirma: “Através do fato de que o Verbo de Deus se fez carne, o corpo entrou na teologia… pela porta da frente” (TdC, 02/04/1980). Cristo, portanto, é o foco de qualquer teologia do corpo autêntica. Cristo é o foco de uma compreensão cristã do corpo e da sexualidade. Por isso é Cristo – em seu corpo, e através do seu corpo, entregue por nós – quem revela completamente o mistério do Pai em seu amor, e revela completamente o homem para si mesmo (cf. Gaudium et Spes, n. 22).
“Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (Jo 15,12). Este é o resumo do Evangelho. Este é o verdadeiro significado da vida. E, de acordo com João Paulo II, este chamado a amar como Deus ama é revelado para nós “desde o princípio” através do que João Paulo II chama de “sentido nupcial do corpo”. Por isso, João Paulo pode dizer que se vivermos de acordo com o sentido nupcial do corpo, nós realizamos o verdadeiro sentido de nosso ser e de nossa existência (TdC, 16/01/1980).
Moralidade sexual, portanto, diz respeito a falar a linguagem do amor de Deus através dos nossos corpos. João Paulo mesmo fala sobre o “profetismo do corpo”. O corpo é “profético” porque proclama a verdade sobre Deus. Ou, ao menos, destina-se a proclamar a verdade sobre Deus.
Esta é uma visão da sexualidade estonteantemente bela e digna. Mesmo assim, nossa humanidade decaída tende a resistir a ela. Assumi-la implica também assumir a demanda que ela coloca em nós. Quer dizer que nós jamais poderemos falar a “linguagem dos nossos corpos” de forma a contradizer o sentido sacramental dos nossos corpos. Isto faria de nós “falsos profetas”. O pecado sexual consiste exatamente nisso.
Uma teologia do corpo cristocêntrica possui algumas implicações óbvias para o comportamento sexual. A Igreja não é simplesmente obcecada com questões genitais. Ela se preocupa com a proteção do “grande mistério” do Amor Criativo e Redentor revelado pelo “grande mistério” da união nupcial. Parece-me que Johnson evita completamente a tese de João Paulo sobre a sacramentalidade do corpo porque ele não gosta de encarar o “para onde isso leva”.
O Desenvolvimento Comovente de João Paulo II
Johnson critica o Papa por não prestar atenção o bastante à razão primeira pela qual nós fomos criados à imagem de Deus como homens e mulheres. Embora seja verdade que João Paulo gasta mais tempo esmiuçando a segunda razão da criação, Johnson não consegue reconhecer o comovente desenvolvimento de idéia que o Papa faz em sua TdC, a respeito de como nós refletimos a imagem de Deus.
Exposições tradicionais determinam que o homem reflete a imagem de Deus através de várias manifestações trinitárias de uma alma individual (por exemplo: memória, compreensão e desejo). Mas para João Paulo, “o homem se torna ‘imagem e semelhança’ de Deus não somente através de sua própria humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que homem e mulher formam desde o princípio” (TdC, 14/11/1979).
Esta é uma ousada proposição teológica da parte de João Paulo. Através da sua TdC, e até mais peremptoriamente em declarações posteriores (ver, por exemplo, Mulieris Dignitatem ns. 6-7 e C.I.C. §357, §1702), João Paulo traz à tona a outrora rejeitada idéia de que homem e mulher refletem a imagem de Deus “em” e “através de” sua comunhão de acordo com os ensinamentos do Magistério.
E, caso precisemos de esclarecimento, João Paulo enfatiza que desde o princípio, esta é uma comunhão encarnada, ou seja, é uma comunhão “em uma só carne”. Sim, João Paulo enxerga a união sexual como um ícone da vida íntima e do amor da Trindade. E ele vai ainda mais longe ao dizer que este “conceito Trinitário da ‘imagem de Deus’… constitui, talvez, o aspecto teológico mais profundo que poderia ser dito sobre o homem”.
É curioso que este comovente desenvolvimento não seja nem mesmo mencionado por Johnson. É claro que, mais uma vez, se você aceita isso, você precisa traçar algumas linhas na areia, quanto à moralidade sexual. Algumas, na verdade muitas, atitudes sexuais e ações, não refletem a imagem do amor vivificante de Deus. E homens e mulheres nunca poderiam realizar-se contradizendo a imagem na qual foram feitos.
União Mística e O Júbilo do Céu
Muito mais poderia ser dito a respeito do que Johnson omite em sua crítica à TdC, mas eu vou citar somente um pouco mais de exemplos. Johnson culpa o Papa por não perceber o quanto a energia sexual permeia uma vida de oração cristã. Contudo ele se esquece de mencionar que João Paulo descreve a verdadeira intimidade sexual como uma experiência litúrgica e até mesmo mística (cf. TdC, 04/07/1984).
Johnson afirma que João Paulo “reduz a sexualidade a ‘simples transmissão da vida’”. No entanto, ele mantém silêncio sobre o tão penetrante tópico do Papa, de que “o corpo humano… não é somente uma fonte de fecundidade e procriação…, mas compreende bem ‘desde o princípio’ o atributo ‘nupcial’, isto é, a capacidade de expressar amor” (TdC, 16/01/1980). Em outra parte, João Paulo diz que se a única razão pela qual um casal está fazendo sexo é para transmitir a vida, eles podem estar correndo sério risco de estarem usando um ao outro, ao invés de amando um ao outro (cf. Love & Responsibility, p. 233). É lamentável, mas parece que Johnson está mais interessado em reforçar estereótipos do que em esclarecer o que João Paulo realmente ensina.
Além disso, Johnson afirma que o Papa possui pouca ou nenhuma apreciação pelo gozo e pelo prazer sexual. Entretanto ele se esquece de mencionar o fato de que João Paulo descreve a “beatífica experiência” da união conjugal como um antegozo dos júbilos celestes (cf. TdC, 16/12/1981 e 13/01/1982). Em Love & Responsability, Wojtyla levantou mais do que algumas sobrancelhas por causa de sua detalhada discussão sobre a responsabilidade dos maridos – além do autêntico amor por sua esposa – de garantir que ela alcance o clímax sexual (cf. Love & Responsability, págs. 270-278). Johnson mostra sua ignorância sobre isso quando, tratando superficialmente da questão sobre João Paulo II, diz em sua declaração que, na visão do Papa, a paixão sexual “é vista princpalmente como um obstáculo para o amor autêntico”.
E como um exemplo final, Johnson afirma que a interpretação do Gênesis feita por João Paulo não sustenta as mulheres como agentes morais compartilhando da mesma dignidade que os homens. Tal afirmação demonstra o quanto Johnson interpretou profundamente mal o projeto do Papa. O Santo Padre fala sobre o sentido da solidão original, e diz que se homem e mulher não repousarem na correta fundação de sua igual dignidade como pessoas, sua unidade irá ruir. João Paulo dá muitos detalhes para demonstrar isto (cf. TdC, 07/11/1979 em particular). Além disso, um verdadeiro “elogio à feminilidade” permeia a catequese inteira do Papa (cf. TdC, 12/03/1980, 08/10/1981, 11/08/1982 e 01/09/1982).
REVISITANDO A HUMANAE VITAE
E agora chegamos ao que parece ser a verdadeira razão para as objeções de Johnson à TdC. Enquanto Johnson critica João Paulo por este engrenar todas as suas audiências no sentido de uma defesa da Humanae Vitae (HV), ele não enxerga a ironia do fato de que ele próprio engrena toda a sua crítica à TdC no sentido de sua própria rejeição à HV.
Johnson está certo em uma coisa. Ele tenta fazer o melhor que pode para desacreditar a TdC, defendendo – e deixando seus leitores defenderem – a moralidade do sexo intencionalmente esterilizado. Como João Paulo diz, a HV fornece questões que “permeiam a totalidade” de suas reflexões sobre a TdC. “Isto resulta, portanto, que [uma reflexão sobre a HV] não é artificialmente acrescentada à totalidade, mas é organicamente e homogeneamente unida a ela”. (TdC, 28/11/1984).
A afirmação de Johnson de que não há “virtualmente nada” nos discursos anteriores que fortaleça uma defesa da HV se parece com uma cortina de fumaça ruidosa. É certamente verdade que não há virtualmente nada na apresentação da TdC feita por Johnson, que fortaleça uma defesa da HV. Mas ele não iria querer incluir qualquer coisa que o fizesse (digamos, talvez, a principal tese do Papa…), iria?
De fato, a TdC coloca o ensinamento da HV na base mais certa possível – Deus – e sua revelação de que nós fomos criados à sua imagem e semelhança como homens e mulheres. Para aqueles que foram iluminados pelo Espírito Santo com a compreensão do “grande mistério” da união nupcial como um ícone da vida íntima da Trindade e um sinal sacramental da união de Cristo com a Igreja, a contracepção é simplesmente inconcebível.
Não é nenhum exagero dizer que um casal com essa compreensão, preferiria morrer mártires do que unirem-se em relação sexual contraceptiva. Contudo, aí está a seriedade da questão. Como João Paulo diz, tais casais possuem um “temor salvífico” até mesmo de “violar ou degradar o sinal do mistério divino que carregam em si mesmos…” (TdC, 14/11/1984).
Mas, é claro, eles não vivem com medo. Eles vivem a união conjugal em um nível que é místico e até mesmo litúrgico. Quando se tornam “uma só carne”, eles “completam o verdadeiro sentido de seu ser e de sua existência”, amando como Cristo ama. Portanto, eles são preenchidos com o júbilo infinito que o próprio Cristo prometeu (cf. Jo 15,11).
Insira a contracepção à linguagem do corpo e isso muda tudo. A união nupcial é destinada a proclamar o mistério da Trindade – que “Deus é uma comunhão vivificante de amor”. Entretanto, uma relação sexual voluntariamente esterilizada proclama o oposto: “Deus não é uma comunhão vivificante de amor”. A contracepção muda a “linguagem do corpo” para uma negação específica do Amor Criativo de Deus, transformando os esposos em “falsos profetas”.
A união nupcial também é destinada a ser um sinal sacramental da união de Cristo com a Igreja. Insira a contracepção a este sinal e (consciente ou inconscientemente) um casal se une num contra-sinal da união entre Cristo e a Igreja.
Se o marido pretende ser um verdadeiro símbolo de Cristo na união “numa só carne”, então ele precisa falar a linguagem de Cristo: “este é o meu corpo entregue por vós” (Lc 22,19). E se a esposa pretende ser um verdadeiro símbolo da Igreja na união “numa só carne”, então ela deve falar a linguagem da Igreja (a exemplo de Maria): “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
No entanto, o ato sexual contraceptivo diz: “Este é o meu corpo, não entregue por vós”, e “Não faça-se em mim segundo a tua palavra”. Uau! Isto é uma verdadeira contradição do mistério absoluto da redenção! E é exatamente isso que João Paulo II pontua.
E numa antecipação às críticas sobre se estar sendo demasiadamente biológico, ou de que se está reduzindo as realidades espirituais a meras realidades físicas, eu respondo com aquela primeira declaração da tese de João Paulo II: “O corpo, de fato, e somente ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e divino”.
Isto não é ser demasiadamente biológico, esta é a verdadeira economia da ordem sacramental. Para que os sacramentos transmitam realidades espirituais, o físico precisa simbolizar precisamente o espiritual. Trocar o símbolo físico, na verdade, invalida o sacramento. É por isso que uma relação sexual intencionalmente esterilizada jamais irá consumar um matrimônio – ela é uma contradição da verdadeira essência do “grande mistério” do sacramento.
O que nos traz à ironia do título do artigo de Johnson. Johnson e todos aqueles que aceitam a contracepção é que estão vivendo uma teologia do corpo “desencorporada”. Eles precisam, por necessidade, desencorporar o amor sexual a fim de afirmar que esterilizar intencionalmente seus corpos não tem relação alguma com o que eles estão dizendo sobre si mesmos e sobre Deus.
Johnson afirma que o que realmente importa é a comum disposição para a “abertura à vida” , e portanto nós não precisamos nos sobrecarregar com a avaliação de cada ato sexual. Será que esta mesma lógica se aplica ao juramento matrimonial de fidelidade? Será que é correto cometer adultério, ao menos uma vez? Será que o comum juramento de fidelidade de alguma maneira torna correto aquele ato individual de adultério? Para usar as próprias palavras de Johnson: “isso é simplesmente absurdo”.
Quando nós sobrescrevemos a linguagem divina escrita em nossos corpos com a contracepção, nós falamos contra o “grande mistério” da vida e do amor de Deus que nossos corpos proclamam. Nós blasfemamos. E nunca é correto blasfemar. Nem ao menos uma vez.
CONCLUSÃO
A TdC de João Paulo faz algumas contundentes afirmações sobre o sentido da vida, o sentido do sexo, e o sentido da contracepção. Contundentes é pouco. Estas afirmações abalam a agulha da escala Richter. É inquietante – e alarmantemente evidente – perceber o quão casualmente Johnson lança-as para longe, em favor das camisinhas e diafragmas. Ele simplesmente não sabe o que faz.
Se João Paulo está certo, então a contracepção jamais pode ser a solução para nossos problemas, mas somente o início de um terrível declínio para a humanidade. Quando falamos sobre uma mulher estressada com os seis filhos que já possui, ou sobre a disseminação da AIDS na África, um retorno ao “grande mistério” do plano de Deus para a vida e para o amor que está estampada em nossos corpos, e é revelado através deles, é a única solução real para os problemas que encaramos.
Johnson está certo ao reconhecer que milhões de africanos estão escravizados por uma pandemia sexual. E também há milhões de pessoas em outras partes do mundo, incluindo aqui, no nosso bom e velho EUA, escravizadas por essa pandemia. Mas não é a própria AIDS quem escraviza. A tirania aqui aparece na forma de uma ideologia sexual que tende a nos divorciar, nós, homens e mulheres, do “grande mistério” do plano de Deus para admitir-nos na participação em sua própria Vida e seu Amor.
Pois bem, a quem exatamente interessa separar-nos da Vida e do Amor de Deus? Quem é o escravizador aqui? Como a Senhora Igreja poderia perguntar: “Poderia ser… Satanás?”. Se João Paulo está certo, aqueles que discordam da HV estão (inconscientemente, mas não menos efetivamente) concordando com o velho plano do demônio para divorciar-nos do amor nupcial de Deus.
Dê camisinhas para as pessoas, e você as manterá algemadas. Dê a elas o “grande mistério” do plano de Deus para a vida e para o amor, como proclamado por João Paulo em sua TdC, e você as libertará. Você dará a elas o caminho para a completa realização dos mais profundos desejos do coração humano. Você mudará o mundo.
É por isso que George Weigel descreve a TdC de João Paulo como “uma espécie de bomba-relógio teológica preparada para explodir com conseqüências dramáticas, em algum momento do terceiro milênio da Igreja” (Witness to Hope, pág. 343). Johnson pergunta: “Será que Weigel está certo? Será que um avanço teológico de tão singular importância passou batido pra nós?”.
Ah, sim, passou batido. Mas por quê? Johnson é um cara brilhante, respeitado por muitos. Mas, como muitos, quando ele fala sobre sexualidade, ele está imbuído de uma sabedoria “secular”, condenada a desaparecer.
João Paulo II comunica uma sabedoria secreta, escondida em Deus desde toda a eternidade e destinada para a nossa glorificação após o início dos tempos. Ele a comunica em palavras não ensinadas por homens, mas pelo Espírito. O homem não-espiritual não consegue compreender a mensagem do Papa. Ela parece tola para ele porque sua mente não está iluminada pelo Espírito.
Parafrasear São Paulo não seria somente inteligente. Seria adequado (cf. 1Cor 2). A TdC de João Paulo nos leva ao coração do “grande mistério” do amor apaixonado de Deus para com a humanidade. Somente o Espírito da Verdade alcança a profundidade deste “grande mistério”. E, de acordo com João Paulo, este “‘grande mistério’, que consiste na Igreja e humanidade em Cristo, não pode existir de forma alheia ao ‘grande mistério’ expressado na união [entre homem e mulher] ‘em uma só carne’” (Carta às Famílias, n. 19).
Assim como foi o Espírito Santo quem falou através dos profetas, é o mesmo Espírito Santo quem fala através do marido e da mulher no profetismo do corpo. Cada vez que um marido e sua mulher se tornam “uma só carne”, eles são chamados a abrirem-se ao Espírito da Verdade, que conhece e proclama este “grande mistério” – o Espírito Santo que é o Senhor e Doador da Vida.
Aqueles que aproximam sua união do Senhor e Doador da Vida, aproximam-se do conhecimento do “grande mistério”. Não me surpreende que Johnson não tenha “captado” isso. Aqueles que são inclinados a justificar a contracepção não conseguem “captar” isso. Mas somente através de suas próprias ações que eles podem se aproximar do “grande mistério”.
Será que Johnson realmente entende o que significa sua determinação em justificar a contracepção? Se João Paulo está certo, isto demonstra uma preferência pelo prazer momentâneo do orgasmo esterilizado, em detrimento da oportunidade de participar da vida íntima da Trindade. Má escolha.
Numa escolha como essa, quem se importaria com os sacrifícios exigidos? Eu escolheria a Trindade. E se Johnson realmente compreendesse a teologia do corpo de João Paulo II, acredito que ele também escolheria.
Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 4
sexta-feira, 1 fevereiro, 2008 às 9:47 | Publicado em Teologia do Corpo | 10 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Matrimônio e Família, paternidade responsável, plajenamento familiar, teologia, Teologia do Corpo, vida
DEUS, SEXO E BEBÊS: O QUE A IGREJA REALMENTE ENSINA SOBRE PATERNIDADE RESPONSÁVEL
Por Christopher West
Em minha experiência compartilhando os ensinamentos católicos sobre amor conjugal e sexualidade ao redor do mundo, uma coisa é certa: a confusão reina no que diz respeito ao ensinamento da Igreja sobre paternidade responsável. Talvez o principal problema seja a falha na compreensão total da diferença entre contracepção e abstinência periódica ou “planejamento familiar natural” (P.F.N.). Enquanto a contracepção nunca é compatível com uma visão autêntica de paternidade responsável, a Igreja ensina que o P.F.N. – dada a disposição adequada dos esposos – pode ser.
Como sempre é o caso, pensamentos equivocados surgem dos dois lados do espectro. A falha em distinguir entre contracepção e P.F.N. ocorre não somente entre aqueles que tendem a justificar a contracepção. Ela também ocorre entre os que pensam que qualquer tentativa de evitar ou espaçar os filhos seja um sinal de “fé fraca” ou “falta de confiança em Deus”. E há outro grupo de pessoas que aceitam a licitude do P.F.N. mas defende que deve-se haver uma razão séria o bastante para usá-lo.
Um livro bem extenso deveria ser escrito para falar sobre todos os pontos e contra-pontos válidos necessários para um exaustivo tratamento dessas questões. A meta deste artigo é simplesmente esboçar algumas das questões comuns no que diz respeito à paternidade responsável, esperando trazer algum equilíbrio à discussão. Comecemos delineando a lógica interna da ética sexual da Igreja.
Amor Encarnado
João Paulo II escreveu na Familiaris Consortio que “a diferença antropológica e ao mesmo tempo moral, que existe entre a contracepção e o recurso aos ritmos temporais: trata-se de uma diferença bastante mais vasta e profunda de quanto habitualmente se possa pensar e que, em última análise, envolve duas concepções da pessoa e da sexualidade humana irredutíveis entre si”[1]. Em resumo, estas “duas concepções irredutíveis entre si” gira em torno de uma visão do amor “encarnado” contra uma visão do amor “des-encarnado”.
“Amai uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Estas palavras de Cristo resumem o sentido da vida. Mas como é que Cristo nos ama? “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc 22,19). O amor de Deus – uma realidade espiritual infinita – se fez carne em Jesus Cristo. Em outras palavras, o amor de Cristo é uma realidade encarnada e nós somos chamados a amar exatamente da mesma forma – com a doação sem reservas de nossos corpos.
De fato, o chamado espiritual a amar como Cristo ama está estampado bem nos nossos corpos enquanto homens e mulheres, o que João Paulo II chama de “o sentido nupcial do corpo”. O sentido nupcial do corpo é “a capacidade do corpo de expressar amor: precisamente aquele amor no qual a pessoa se torna um dom e – por meio desse dom – realiza o sentido completo de seu ser e de sua existência”[2].
Homem e mulher expressam esta dádiva corporal de inúmeras maneiras. Mas, como o Santo Padre expõe, esta dádiva “se torna mais evidente quando os esposos… a trazem através daquele encontro que os tornam ‘uma só carne’”[3]. E São Paulo descreve esta união em “uma só carne” como “um grande mistério” que de alguma maneira reflete, proclama e prefigura a união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,31-32).
Nenhuma dignidade ou honra maior poderia ser conferida à nossa sexualidade. Deus criou-nos homem e mulher e chamou-nos a “sermos fecundos e nos multiplicarmos” como um sinal de seu próprio mistério de amor vivificante no mundo. Além disso, se quisermos abraçar esta maravilhosa e sacramental visão da nossa sexualidade, precisamos também abraçar a responsabilidade que vem com ela.
Ética do Sinal
João Paulo II diz que nós “podemos falar sobre moral bem ou mal” no relacionamento sexual “de acordo com o quanto ele possui… ou não o caráter de verdadeiro sinal”[4]. Em resumo, nós somente precisamos fazer a seguinte pergunta: Seria um determinado comportamento, um autêntico sinal do amor divino ou não? A união sexual possui uma “linguagem profética” porque ela proclama o próprio mistério de Deus. Mas o Papa acrescenta que precisamos ser cuidadosos em distinguir entre verdadeiros e falsos profetas[5]. Se somos capazes de dizer a verdade com o corpo, também somos capazes de falar contra esta verdade.
A fim de serem “fiéis ao sinal”, os esposos precisam falar como Cristo fala. Cristo dá seu corpo livremente (“Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a dar”, Jo 10,18). Ele dá seu corpo sem reservas (“até o extremo os amou”, Jo 13,1). Ele dá seu corpo fielmente (“Eu estarei sempre convosco”, Mt 28,20). E ele dá seu corpo fecundamente (“Eu vim para que tenham vida”, Jo 10,10).
É com este amor que o casal se compromete no matrimônio. De pé ante o altar, o padre ou diácono pergunta a eles: “Vocês vieram aqui livremente e sem reservas para darem-se um ao outro em casamento? Vocês prometem ser fiéis até a morte? Vocês prometem receber com amor os filhos que Deus vos der?” Então, tendo concordado em amar como Cristo ama, o casal é destinado a encarnar tal amor em sua relação sexual. Em outras palavras, a união sexual é destinada a ser o lugar onde as palavras dos votos matrimoniais “se tornam carne”.
Quão saudável seria um casamento se os esposos, ao invés de encarnar seus votos, fossem regularmente infiéis aos mesmos, regularmente falando contra eles? Aqui reside a essência do mal da contracepção. O desejo de evitar uma gravidez (quando há razões suficientes para isso) não é o que corrompe o comportamento dos esposos. O que corrompe o sexo acompanhado de contracepção é a escolha específica de tornar estéril uma união potencialmente fértil. Isto torna o sinal do amor divino um “contra-sinal”.
O amor divino é generoso; ele gera. E, para tornar mais simples, é por isso que Deus nos deu genitais – para capacitar os esposos a refletir em seus corpos (a “encarnar”) uma versão terrena de seu amor livre, total, fiel e fecundo. Quando os esposos escolhem usar contracepção – isto é, quando eles adulteram voluntariamente o potencial criativo de sua união – eles se tornam “falsos profetas”. Seu ato sexual continua “falando”, mas ele nega o vivificante amor de Deus.
Amor Des-encarnado
“Pensar que estancar o livre fluxo dos meus fluidos corporais irá me impedir de amar minha esposa é ridículo”. Este sentimento – raivosamente expressado em uma carta que recebi – é um bom exemplo da visão “des-encarnada” do amor, usada para justificar a contracepção. Para este homem, o amor não é revelado no corpo (e seus fluidos), mas é algo puramente espiritual.
O conselho de São João vem à mente: Cuidado com aqueles “falsos profetas” que negam a encarnação (cf. 1Jo 4,1-3). Não se engane – a conclusão lógica é que a contracepção implica a aceitação de uma visão de mundo contrária ao mistério do Amor Encarnado, ou seja, o mistério de Cristo.
Aplicando a mesma visão “des-encarnada” de amor a Cristo, o que fazer do sangue de Cristo, por nós derramado na cruz e nos dado a beber na Eucaristia? Seria, esta visão de negação do “livre fluxo dos fluidos corporais”, a plena e definitiva realização do amor espiritual de Cristo por sua Igreja? Se Cristo tivesse hipoteticamente se recusado a derramar seu sangue numa suposta crucifixão, isto teria sido o suficiente? “Sem efusão de sangue não há perdão” (Hb 9,22). Similarmente, sem a efusão do sêmen, não há ato conjugal. O espírito é expressado no e através do corpo (e sim, através de seus fluidos também). Não há outra forma de expressar o espírito para nós, pessoas encarnadas. João Paulo II explica: “Como espírito encarnado, que é uma alma que expressa a si mesma em um corpo e um corpo movido por um espírito imortal, o homem é chamado a amar em sua totalidade unificada. O amor inclui o corpo humano, e o corpo é participante do amor espiritual”[6].
A relação que usa contracepção, somente pode expressar amor pela outra pessoa, se ela for uma pessoa des-encorporada. Este não é um amor pela outra pessoa condizente com a unidade entre corpo e alma desejada por Deus. Dessa forma, atacando o potencial procriativo do ato sexual, a relação que usa contracepção “falha também na tentativa de ser um ato de amor”[7].
Mantendo o Respeito pelo Amor Encarnado
Então, respeitar o “amor encarnado” significa que os casais devem ter todos os filhos que o acaso proporcionar? Não. Ao chamar os casais para um amor responsável, a Igreja os chama também para uma paternidade responsável.
O Papa Paulo VI declarou claramente que os casais devem “exercitar a paternidade responsável prudentemente e generosamente decidindo ter uma família numerosa, ou, por razões sérias e com o devido respeito à lei moral, escolhendo não ter mais filhos pelo resto da vida ou por um período indeterminado”[8]. Perceba que famílias numerosas devem resultar de uma reflexão prudente, e não do “acaso”. Note que os casais devem ter sérias razões para evitar a gravidez e devem respeito à lei moral.
Supondo que um casal tenha uma séria razão para evitar um filho, o que eles devem fazer para não violar a “ética do sinal”? Em outras palavras, o que eles poderiam fazer para evitar um filho sem que se tornassem infiéis a seus votos matrimoniais? Eu estou certo de que qualquer pessoa que esteja lendo este artigo está fazendo isso neste exato momento. Eles podem abster-se de sexo. A Igreja sempre ensinou, ensina e sempre ensinará que o único método de “controle de natalidade” que respeita a linguagem do amor divino é o “auto-controle”.
Surge uma nova questão: Estaria um casal invalidando de alguma forma sua união se eles se casarem sabendo que são naturalmente inférteis? Ou mesmo um casal que já tenha passado daquela idade em que a gravidez seja impossível. Eles sabem que sua união não resultará em filhos. Será que eles estariam violando “o sinal” por manterem relação sabendo disso? Esta não seria uma atitude contraceptiva? Não. Nem eles, e nem os casais que usam o P.F.N. para evitar um filho. Eles seguem sua fertilidade, se abstêm quando estão férteis e, se assim desejarem, têm relações quando estão naturalmente inférteis. (Para os leitores desinformados, eu devo acrescentar que os métodos modernos de P.F.N. têm de 98 a 99% de sucesso ao evitar gravidez quando usados corretamente. E eles nada têm a ver com o método da “tabelinha” que sua avó usava.)
As pessoas certamente irão retrucar: “Fala sério! Você é detalhista! Qual é a grande diferença entre esterilizar voluntariamente a relação sexual, e esperar até que ela esteja naturalmente infértil? O resultado final será sempre o mesmo”. A estes eu respondo: Qual é a grande diferença entre um aborto espontâneo e um aborto voluntário? O resultado final é sempre o mesmo. Um, entretanto, é um “ato de Deus”. E no outro o homem toma o poder da vida em suas próprias mãos e se coloca no lugar de Deus (cf. Gn 3,5).
A diferença, como já citamos João Paulo II, “é muito mais ampla e profunda do que comumente se supõe”. Na verdade, a diferença é cósmica. O P.F.N. capacita o casal a manter o respeito pelo amor encarnado. Este respeito é a verdadeira razão de ser do P.F.N. A contracepção “des-encarna” o amor e, fazendo isso, “violenta a própria criação de Deus no nível da mais profunda interação entre a natureza e a pessoa”[9].
Confiando na Providência
Pois bem, o que constitui uma “razão séria” para evitar um filho? É aí que a discussão normalmente esquenta. O pensamento correto (ortodoxo) sobre o problema da paternidade responsável, como sobre qualquer problema, é uma questão de manter importantes distinções e equilibrar cuidadosamente várias verdades. Ignorar isso leva a erros nos dois extremos.
Um exemplo de tal erro é a “hiperbólica” noção de que se os casais realmente confiam na providência divina, eles jamais buscarão formas de evitar um filho. Este simplesmente não é o ensinamento da Igreja. Como Karol Wojtyla (nome de batismo de João Paulo II) observou, em alguns casos “o aumento no tamanho da família seria incompatível com o cargo de pais”[10]. Por isso, como ele também afirmou, evitar filhos “em certas circunstâncias pode ser permitido ou mesmo obrigatório”[11].
Nós estamos certos em confiar na providência divina. Mas esta importante verdade precisa estar equilibrada com outra importante verdade, se quisermos evitar o erro de um certo “providencialismo”. Quando Satanás tentou Cristo a saltar do templo, ele estava certo ao dizer que Deus tomaria providências em seu benefício. Satanás estava na verdade citando as próprias Escrituras! Mas Cristo respondeu com outra verdade, também das Escrituras: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (cf. Lc 4,9-12).
Um casal que trabalhe para sustentar seus filhos, da mesma forma, não deve tentar Deus. Hoje em dia, o conhecimento do ciclo fértil é parte da providência de Deus. Assim, os casais que responsavelmente usam este conhecimento para evitar a gravidez, estão confiando na providência de Deus. Estes casais, não menos do que os que “prudentemente e generosamente decidem ter uma família numerosa”[12] estão praticando a paternidade responsável.
Egoísmo: o Inimigo da Paternidade Responsável
É claro que, como todas as coisas boas, o P.F.N. pode ser abusado. O egoísmo, inimigo do amor, é também inimigo da paternidade responsável. Está claro nos ensinamentos da Igreja que razões insignificantes não são desculpas para se evitar filhos. E nem os esposos precisam passar por uma situação de “vida e morte” antes de fazerem uso do P.F.N.
O Vaticano II ensina que, ao determinar o tamanho da família, os pais devem “atenciosamente levar em consideração seu próprio bem-estar, bem como o de seus filhos já nascidos e daqueles que o futuro poderá trazer”. Eles devem “calcular as condições materiais e espirituais, e também seu estado de vida. Finalmente, eles devem consultar os interesses do grupo familiar, da sociedade, e da própria Igreja”[13]. A respeito da questão de limitar o tamanho da família, a Humanae Vitae ensina que “motivos razoáveis para espaçar os nascimentos” podem surgir “das condições físicas ou psicológicas do marido ou da esposa, ou de circunstâncias externas”[14].
A orientação da Igreja é propositalmente ampla, tolerante. Seguindo a orientação da Igreja, eu não pretendo dizer coisas muito além disso. É o dever de cada casal aplicar estes princípios básicos em suas situações particulares. Dilemas morais são muito “fáceis” de se resolver quando outros estabelecem os limites para nós, mas, como o Vaticano II diz: “Os próprios pais, e ninguém mais, devem, em última instância, fazer este julgamento, sem perder Deus de vista”[15]. João Paulo II acrescenta que esta questão é “de particular importância para determinar… o caráter moral da ‘paternidade responsável’”[16].
Por essa razão, a idéia surpreendentemente difundida de que um casal precisa obter “permissão” de um padre para evitar gravidez, não é somente falsa, mas evidencia uma séria confusão acerca da natureza da responsabilidade moral. Se um casal está em dúvida quanto às suas razões, é certamente recomendável procurar um sábio aconselhamento. Mas a Igreja coloca a responsabilidade da decisão, de forma muito justa, nos ombros do casal. Se os esposos escolhem limitar o tamanho da família, o Catecismo somente ensina que “é responsabilidade deles ter a certeza de que seu desejo não é motivado por egoísmo, mas está em conformidade com a generosidade que é apropriada à paternidade responsável”[17].
Neste ponto, há outra forma de egoísmo sutil e menos discutido que conflita com a paternidade responsável. Certa vez eu aconselhei um casal que teve vários filhos muito próximos entre si. Os pais reconheciam corretamente cada filho como uma graça divina e faziam tudo que podiam para amá-los e cuidar deles. Entretanto, a mãe, emocionalmente esgotada desde o terceiro filho, desejava um espaçamento maior entre os bebês desde então. Isto trouxe à luz que a razão pela qual eles não espaçaram seus filhos foi porque o marido egoísticamente não quis (ou não conseguia) se abster.
Aqui, o que, visto superficialmente, pode passar como uma resposta generosa ao ensinamento da Igreja, quando visto mais de perto, na verdade, demonstra uma falha na vivência do ensinamento da Igreja. O ponto é que, a fim de que a paternidade seja “responsável”, a decisão de evitar a união sexual durante o período fértil ou a decisão de se entregar à união sexual durante o período fértil não pode ser motivada pelo egoísmo.
Matar ou Morrer: Uma Analogia
A seguinte analogia pode ajudar a resumir não somente a importante distinção moral entre contracepção e P.F.N., mas também a necessária atitude moral que deve acompanhar o uso responsável do P.F.N.
Nossa atitude natural para com os outros, deve ser aquela que deseja a integridade da vida e da saúde dos outros. Entretanto, as circunstâncias podem nos levar a desejar honestamente que Deus chame alguém para a Vida Eterna. Suponha que um parente idoso esteja sofrendo muito pela idade e pelas enfermidades que normalmente a acompanham. Você pode ter o nobre desejo de que ele descanse na morte. Igualmente, uma atitude natural do casal deve ser a de desejar filhos. As circunstâncias, entretanto, podem levar um casal a ter o nobre desejo de evitar uma gravidez.
No caso do parente idoso, uma coisa é sofrer junto com ele durante sua espera paciente por sua morte natural. Nesta situação não haverá nada de censurável na atitude de ser grato à Deus por sua morte, quando ela ocorrer. Mas é uma coisa completamente diferente tomar o poder da vida em suas próprias mãos e matá-la só porque você não consegue suportar seus sofrimentos.
Da mesma forma, para o casal que possui o nobre desejo de evitar a gravidez, não há nada censurável em esperar pacientemente pelo período natural de infertilidade, ou mesmo de ser grato a Deus por ter concedido que esse período de infertilidade existisse. Mas uma coisa completamente diferente é o casal tomar o poder da vida em suas próprias mãos e se fazerem artificialmente estéreis porque não conseguem suportar a abstinência.
A propósito da atitude, é também possível que o seu desejo de ver teu parente morto possa ser maldoso. Você pode ter algum tipo de ódio por ele que pode levar você a desejar sua morte. Você não pode matá-lo, no entando ele pode morrer de causas naturais. Não obstante, se você se alegrar com sua morte, isto seria censurável. De forma semelhante ao casal que usa o P.F.N. com um maldoso desejo de evitar uma gravidez. Sua alegria no período infértil seria também algo censurável, porque é motivada por uma mentalidade egoísta de rejeitar filhos.
Concluindo
Neste pequeno artigo, tentei resumir a lógica básica da ética sexual católica, com a esperança de trazer algum equilíbrio à discussão sobre a paternidade responsável.
Em contraste com a visão “desencarnada” do amor, tão disseminada no mundo, a Igreja ensina que a matéria, a carne, deve ser levada em consideração. O que fazemos com nossos corpos expressa nossas convicções mais profundas sobre nós mesmos, sobre Deus, sobre o sentido do amor, e sobre as regras do universo. Quando se leva a sério a visão sacramental do corpo proposta pela Igreja, compreendemos que a união sexual não é somente um processo biológico, mas um processo profundamente teológico – “um grande mistério que diz respeito a Cristo e à Igreja” (Ef 5,31-32).
O bem equilibrado ensinamento da Igreja a respeito da paternidade responsável é um presente divino, dado para proteger o supremo valor deste sinal. Desequilíbrios nos dois extremos devem ser evitados, se quisermos nos manter fiéis ao sinal do amor matrimonial e deixar sempre clara a proclamação do mistério divino no mundo.
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[1] Familiaris Consortio, n. 32
[2] Teologia do Corpo, 16 de janeiro de 1980
[3] Carta às Famílias, n. 12
[4] Teologia do Corpo, 27 de agosto de 1980
[5] Cf. Teologia do Corpo, 26 de janeiro de 1983
[6] Familiaris Consortio, n. 11
[7] Teologia do Corpo, 22 de agosto de 1984
[8] Humanae Vitae, n. 10
[9] Familiaris Consortio, n. 32
[10] Love & Responsability, p. 243
[11] Person & Community: Selected Essays, p. 293
[12] Humanae Vitae, n. 10
[13] Gaudium et Spes, n. 50
[14] Humanae Vitae, n. 16
[15] Gaudium et Spes, n. 50
[16] Teologia do Corpo, 01 de agosto de 1984
[17] Catecismo da Igreja Católica, §2368 (ênfase acrescentada)
Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 3
sexta-feira, 25 janeiro, 2008 às 9:48 | Publicado em Teologia do Corpo | 6 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
A TEOLOGIA DO CORPO E A NOVA EVANGELIZAÇÃO
Por Christopher West
“É ilusão pensar que se pode construir uma verdadeira cultura da vida humana se não… compreendermos e vivermos a sexualidade, o amor e toda a existência de acordo com seu verdadeiro sentido e na sua íntima correlação.” Assim diz João Paulo II em O Evangelho da Vida (n. 97). O relação sexual é a rocha de fundação da própria vida humana. A família – e, por isso, a própria cultura – surge desta relação. Em resumo, como o sexo flui, assim fluem o casamento e a família. Como o casamento e a família fluem, assim flui a civilização.
Tal lógica não é bem refletida pela nossa cultura. Não é exagero dizer que a meta do século XX foi livrar-se da ética sexual cristã. Se pretendemos construir uma cultura da vida, a meta do século XXI tem que ser recuperá-la. Mas a abordagem dos velhos manuais morais não estão conquistando a opinião de nossos conhecidos, amigos e colegas. Nós precisamos de uma nova visão teológica que explique a ética sexual da Igreja de forma atraente ao nosso pensamento moderno.
Como mais e mais pessoas estão descobrindo, João Paulo II dedicou o primeiro grande projeto de catequese do seu pontificado – 129 audiências pronunciadas entre setembro de 1979 e novembro de 1984 – desenvolvendo justamente uma tal teologia: uma teologia do corpo. O resultado final é uma revolução não somente para católicos, mas para todos os cristãos e – se os cristãos absorverem-na e viverem-na – para o mundo inteiro.
O Corpo Proclama o Mistério de Deus
A teologia do corpo do Papa, fornece uma bela e enriquecedora visão do amor matrimonial e da intimidade sexual. Mas vai muito além disso. É uma profunda educação que declara o que significa ser uma pessoa humana.
Como João Paulo diz, o que aprendemos é obviamente “importante no que diz respeito ao casamento e à vocação cristã dos maridos e esposas”. De qualquer forma, “é igualmente essencial e válido para o entendimento do homem em geral: para o problema fundamental de seu entendimento e para a compreensão de sua própria existência no mundo” (15/12/1982). Por isso “esta teologia do corpo, a qual é a base do modo mais adequado de… educação (na verdade a auto-educação) do homem” (08/04/1982).
Observando as Escrituras, João Paulo demonstra que a união dos sexos fornece uma “lente” através da qual se pode ver a totalidade do plano de Deus para a humanidade. O plano infinito de Deus é “se casar” conosco (cf. Os 2,19) – para viver conosco em uma união eterna de vida e amor. E Deus queria que este “plano matrimonial” infinito fosse tão evidente e tão óbvio para nós que Ele imprimiu sua imagem em nosso próprio ser, criando-nos homem e mulher.
É por isso que o Papa fala do corpo como uma teologia – um “estudo de Deus”. O corpo, na total verdade de sua masculinidade e feminilidade, proclama o mistério divino no mundo. O que é o mistério divino? Como diz o Catecismo: “Deus revela seu segredo mais íntimo: Ele mesmo é eternamente intercâmbio de amor: Pai, Filho e Espírito Santo, e destinou-nos a participar deste intercâmbio” (C.I.C., §221).
Um dos meus alunos certa vez ouviu um colega paroquiano dizer: “Três pessoas em um só Deus… três Deuses em uma só pessoa… e daí? O que importa é nos unirmos, e vivermos como bons cristãos”. Espere aí! A Trindade é o centro de tudo em que acreditamos como cristãos. Uma vez que fomos feitos à imagem da Trindade, não podemos saber quem somos nós ou como “viver como bons cristãos” distantes da Trindade. Esta é uma verdade que diz respeito particularmente à união dos sexos.
De fato, Deus planejou a união matrimonial como uma imagem terrena de Seu próprio “intercâmbio de amor” Trinitário. É também uma “promessa” do nosso destino de participar no amor da Trindade através de Cristo. “‘Por esta razão o homem deve deixar seu pai e sua mãe e unir-se à sua esposa, e os dois devem se tornar uma só carne’. Este é um grande mistério, eu quero dizer no que se refere a Cristo e a Igreja” (Ef. 5,31-32).
É claro que a união entre os esposos é apenas uma analogia ao mistério Trinitário. Como João Paulo II nos lembra: “o mistério de Deus permanece transcendente em relação a esta analogia, como em relação a qualquer outra analogia pela qual procurarmos expressá-la em uma linguagem humana” (29/09/1982). Contudo, ao mesmo tempo o Papa diz que “não há nenhuma outra realidade humana que corresponda melhor, humanamente falando, com aquele mistério divino” (30/12/1988).
Envolve Todo o Evangelho
Compreender o corpo humano como uma teologia não deve ser interesse somente de uns poucos teólogos especializados. Deve ser interesse de todos que quiserem compreender o sentido da existência humana. Embora o enfoque seja no amor sexual, como o Papa diz, a teologia do corpo proporciona “a redescoberta do sentido da total existência, o sentido da vida” (29/10/1980).
Há uma razão pra que sejamos todos tão terrivelmente interessados em sexo e na beleza do corpo humano. Quando possuímos a pureza do olhar, tal interesse destina-se a direcionar-nos para Deus. Compreender o plano de Deus para o corpo e o sexo “diz respeito à Bíblia inteira” (13/01/1982) e nos mergulha na “perspectiva de todo o Evangelho, de todo o ensinamento, de fato, de toda a missão de Cristo” (03/12/1980).
Não há notas de rodapé na vida cristã. Como George Weigel observa em sua biografia do Papa, a teologia do corpo “possui ramificações por toda a teologia”. Além disso, “ela apenas começou a adaptar-se à teologia eclesial, à pregação e à educação religiosa. Quando isso estiver concretizado, irá compelir um comovente desenvolvimento do pensamento sobre praticamente todos os principais temas do Credo” (Witness to Hope, págs. 353, 853).
Por quê o corpo é tão importante para a teologia e para a compreensão da vida humana? Porque a nossa realidade última e definitiva é revelada através do corpo – através do Verbo tornado carne. Cristo – através de seu corpo entregue por nós – “revela totalmente o homem para si mesmo, e torna claro seu chamado supremo” (Gaudium et Spes, n. 22).
Se parece estranho falar do corpo como uma teologia, João Paulo II nos lembra que “Pelo fato de que o Verbo de Deus se tornou carne, o corpo adentrou a teologia… pela porta da frente” (02/04/1980). O mistério de Deus revelado na carne humana (teologia do corpo) – esta é a própria “lógica” do cristianismo. E esta é a lógica que precisamos trazer para nossos conhecidos, amigos e colegas em uma “nova evangelização”.
O Que é a Nova Evangelização?
João Paulo usou pela primeira vez a expressão “nova evangelização” em uma viagem para a América Latina em 1983. Desde então ele tem “incansavelmente reafirmado a urgente necessidade de uma nova evangelização” (Fides et Ratio, n. 103). Esta urgência não vem somente do fato de que nações inteiras continuam sem receber o Evangelho, mas também porque “grupos inteiros de batizados perderam o sentimento vivo da fé, ou mesmo nem se consideram mais como membros da Igreja, e vivem uma vida afastada de Cristo e de Seu Evangelho” (Redemptoris Missio, n. 86).
Por isso, um fato “novo” sobre esta evangelização é que ela está direcionada em grande parte para “batizados não-crentes”. Homens e mulheres em grande número são “culturalmente cristãos”, mas não experimentaram uma conversão de coração a Cristo e Seus ensinamentos. Um chamado à conversão interior, de fato, foi um dos principais temas do Vaticano II. Como o Concílio bem compreendeu, isto só pode acontecer através de um testemunho autêntico, motivador e evangélico de salvação através de Jesus Cristo.
Como João Paulo esclarece em sua Carta Apostólica Sobre o Início do Novo Milênio, a nova evangelização não é “uma questão de inventar um ‘novo programa’. O programa já existe: consiste no plano encontrado no Evangelho e na Tradição viva, é o mesmo de sempre” (n. 29). O que é essencial a fim de trazer o Evangelho para o mundo moderno é uma proclamação que seja “nova no ardor, nos métodos, e nas expressões” (09/03/1983).
Falando aos Bispos Americanos em 1998, o Papa observou que “a nova evangelização [envolve] um esforço vital por aproximar de um mais profundo conhecimento dos mistérios da fé e buscar uma linguagem significativa com a qual possamos convencer nossos contemporâneos que eles são chamados para a novidade da vida através do amor de Deus”. Ela é a tarefa de compartilhar com seus conhecidos, amigos e colegas, “as ‘insondáveis riquezas de Cristo’ e dar por conhecer ‘o plano do mistério oculto desde a eternidade em Deus, que criou todas as coisas’” (Ef. 3,8-9).
“Mas de que forma eu poderia fazer isso?”, você pergunta. Fale sobre sexo. Que grande ponto de partida para evangelizar – todo mundo se interessa por sexo! Eu digo isso com uma ponta de humor, mas eu também estou sendo completamente sério. Se queremos tornar conhecido para os outros “o plano do mistério oculto em Deus desde a eternidade”, adivinhem – há uma imagem deste mistério estampada bem na nossa sexualidade. A teologia do corpo fornece exatamente a “linguagem significativa” de que precisamos para convencer nossos conhecidos, amigos e colegas que eles são “chamados à novidade da vida através do amor de Deus”.
Trazendo os Mistérios do Céu aqui pra Terra
Uma vez que a sabedoria do Papa é verdadeiramente compreendida (ou apresentada de uma maneira que as pessoas conseguem entender), a teologia do corpo possui uma notável capacidade de trazer os mistérios celestes aqui pra terra. Os conhecimentos do Papa “refletem verdade” porque seu ensinamento é fruto de um constante confronto da doutrina com a experiência.
Como o Santo Padre observa: “Deus vem ter conosco, servindo-Se daquilo que nos é mais familiar e mais fácil de verificar, ou seja, o nosso contexto cotidiano, fora do qual não conseguiríamos entender-nos” (Fides et Ratio, n. 12). O que nos é mais familiar? O que nos é mais fácil de verificar? O que nos é mais “cotidiano” do que nossa experiência corporal? É aí que Deus se encontra conosco – na carne. E é aí que nós precisamos nos encontrar com o mundo na nova evangelização.
O Catecismo ensina que a Igreja “em toda a sua existência e em todos os seus membros… é enviada para anunciar, testemunhar, atualizar e espalhar o mistério de comunhão com a Santíssima Trindade” (§738). Este é um bom resumo da meta essencial da evangelização. E este mistério infinito de comunhão torna-se próximo de nós, nós compreendemos que ele é parte de nós por meio das lentes da teologia do corpo. O mistério de amor e comunhão não é algo que está “lá fora” em algum lugar. Ele está “bem aqui” – estampado em nossa inteira experiência pessoal de “ser um corpo”, de ser um homem ou ser uma mulher.
Nossa criação como homem ou mulher e nosso desejo de comunhão é “o fato fundamental” da existência humana (cf. 13/02/1980). Novamente, o Evangelho se encontra conosco aqui. Como João Paulo diz, o mistério cristão não pode ser compreendido “sem que tenhamos em mente o ‘grande mistério’ envolvido na criação do ser humano como homem e mulher, e a vocação de ambos para o amor conjugal” (Carta às Famílias, n. 19).
Encarnando o Evangelho
Naquele mesmo discurso aos Bispos Americanos, João Paulo definiu a tarefa básica da evangelização como “o esforço da Igreja por proclamar para [todos os homens e mulheres] que Deus os ama, que Ele se entregou por eles em Cristo Jesus, e que Ele os convida a uma vida de amor sem fim”. Esta mensagem básica traz, em si mesma, “boas novas”. Mas ela precisa estar encarnada se os homens e mulheres quiserem procurar sua ligação com ela.
É claro que esta mensagem foi e é encarnada em Jesus Cristo. Mas por acaso você não pode prever seus amigos questionando: “O que algum homem que viveu há dois mil anos atrás tem a ver comigo?”. Como um dos meus professores costuma dizer, nós podemos proclamar que “Jesus é a resposta” até ficarmos com a cara azul. Mas se as pessoas não estiverem, primeiramente, em sintonia com o assunto, permanecemos no nível da abstração.
Aqui reside o dom de fundamentar o Evangelho no corpo. Este é o antídoto para a abstração. Ele nos enraíza no que é verdadeiramente humano – no “dia-a-dia” – e assim nos prepara para receber o que é verdadeiramente divino. Em outras palavras, ele nos coloca justamente em contato com a questão humana, abrindo assim nossos corações à resposta divina.
De certo modo… a corporalidade é a questão humana. O que significa ser um homem? O que significa ser uma mulher? Não há perguntas mais importantes a serem feitas por homens e mulheres. E note que estas são questões inerentemente sexuais, questões sobre “ser um corpo”.
O Corpo Revela a Pessoa
A verdadeira capacidade de questionar e perscrutar aponta, é claro, para nossa dimensão mais profunda, a dimensão espiritual. Mas o problema é que nossa dimensão espiritual está manifestada na nossa dimensão física. O corpo humano – ao contrário do seu gato ou peixinho – revela o mistério de uma pessoa. João Paulo descreve isto como a experiência da “solidão original”. Quando Adão nomeou os animais, ele notou que estava “sozinho”, enquanto pessoa, no mundo. Todos nós conhecemos este sentimento de “solidão” humana – de estar sozinho diante de Deus, diferentemente do resto da criação.
Este sentimento humano universal conduz à questão humana universal: Por quê eu estou aqui? Qual é o sentido da minha existência? Onde posso encontrar a resposta? No mesmo lugar onde encontramos a pergunta – em nossa experiência corporal. Se a solidão (por quê eu sou uma pessoa?) é a questão humana, comunhão é a resposta divina.
A experiência de “ser um corpo” não demonstra somente que eu estou “sozinho”, mas também que eu necessito de um(a) “ajudante”. Não é bom estar sozinho (cf. Gn 2,18). Somos destinados para o amor, para a comunhão com um “outro(a)”. E esta inclinação para o amor está inscrita bem nos nossos corpos. O corpo de um homem não faz sentido por si próprio. Nem o de uma mulher. Contemplando o “outro” na beleza da diferença sexual, nós percebemos que somos chamados a nos doarem como um presente, um para o outro. Descobrimos que o corpo possui um sentido nupcial.
O sentido nupcial do corpo é a sua “capacidade de expressar amor: precisamente aquele amor no qual a pessoa se torna um presente, uma dádiva e — por meio desta dádiva — cumpre completamente o sentido de seu ser e de sua existência” (16/01/1980). Você ouviu isso? Se vivermos de acordo com a verdade da nossa sexualidade, nós cumprimos completamente o sentido de nosso ser e de nossa existência. Conte isso pros seus conhecidos e amigos e com certeza você ganhará a atenção deles. O amor que se doa é o sentido da nossa existência. E isto está estampado bem no sentido da nossa sexualidade.
Nada disso é abstrato. Mesmo se o pecado tiver nos afastado da beleza e da pureza do plano original de Deus, você e qualquer pessoa na sua agenda telefônica conhecem a “dor” da solidão e o desejo por comunhão. Qualquer pessoa conhece a “força magnética” do desejo erótico. Este desejo básico do ser humano por união, na verdade, é o elo mais concreto que qualquer coração humano pode ter com “aquele homem que viveu há dois mil anos atrás”. Como?
O Desejo Humano Conduz a Cristo
A experiência mostra que, mesmo na mais bela relação humana, aquela “dor” da solidão não é inteiramente satisfeita. Continuamos aspirando por “algo mais”. Se o sexo realmente fosse nossa “satisfação plena”, o casamento seria o paraíso. Mas a união dos sexos, na melhor das hipóteses, é somente um vislumbre, somente um presságio, somente um “sacramento” de algo muito maior.
“Por esta razão… os dois se tornam uma só carne.” Por que razão? Para revelar, proclamar e antecipar a união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,31-32). A comunhão eterna, extática e “nupcial” com Cristo e com toda a comunhão dos santos – tão superior a qualquer coisa terrena que nós não conseguimos sequer sondar – somente ela pode satisfazer a “dor” humana da solidão. Este é o Polo Norte para o qual a força magnética do desejo erótico é orientado. Tomando emprestada uma idéia de Santo Agostinho, nós fomos feitos para a comunhão com Cristo, e nossos corações não sossegam enquanto não descansam neste enlace eterno.
Aí está a lógica do celibato “por amor ao Reino” (cf. Mt 19,12). Cristo convida alguns homens e mulheres aqui na terra a “pularem” o sacramento do matrimônio a fim de dedicarem-se inteiramente às núpcias do Cordeiro (Ap 19). Dessa forma eles dão testemunho da plena realização que nos espera. Enquanto muitos estão reclamando o fim do celibato, mais do que nunca nós precisamos do autêntico testemunho celibatário. Quando nós perdemos a eterna união de vista, inevitavelmente passamos a enxergar a imagem terrena (união sexual) como nossa realização plena. O que devia ser um “ícone” do céu, agora se torna um ídolo.
Bem-vindo ao mundo no qual vivemos. A tática do pecado é “distorcer” e “desorientar” nosso desejo pelo céu. Isso é tudo o que ele pode fazer. Quando nós compreendemos isto, nós percebemos que a confusão sexual tão predominante em nosso mundo e em nossos próprios corações, não passam do desejo humano pelo céu manifestado de forma frenética. Como G.K. Chesterton pontuou: “Cada homem que bate à porta de um prostíbulo, está buscando Deus” (Collected Works, Volume I).
O Objetivo da Nova Evangelização
O objetivo da nova evangelização não é condenar o mundo pelos seus excessos e distorções, mas ajudar as pessoas a “desentortarem-se”. Por exemplo, o típico estudante adolescente rapidamente aprende que o sentido da vida é ficar bêbado e fazer sexo desenfreadamente. “Desentorte” estas falsificações e você descobrirá dois sacramentos: a Eucaristia e o Matrimônio.
Nós queremos nos “inebriar” no novo vinho que Cristo nos dá. E onde Cristo nos deu este vinho pela primeira vez? Em uma festa de casamento (cf. Jo 2). A união dos sexos somente pode trazer-nos a alegria que procuramos, se ela refletir o amor de Cristo emanado na Eucaristia. É isto que nós realmente buscamos. Na nova evangelização, nós temos que caminhar em direção aos grupos onde as pessoas estão se embebedando ou procurando sexo ilícito e dizer: “Você sabe o que você realmente quer aqui? Você quer a Eucaristia e o Matrimônio, e a Igreja Católica tem isso pra te oferecer”.
Mais uma vez eu estou colocando uma pitada de humor. Mas de novo, também estou sendo sério. Por trás de cada pecado, por trás de cada “má ação”, há um genuíno desejo humano que pode ser realizado através de Cristo e Sua Igreja. Quando nossos desejos são “desentortados”, começamos a perceber que o que nós realmente desejamos é amor eterno e alegria. É pra isso que fomos criados. E a boa nova do Evangelho é que tal amor já foi revelado. Ele já foi nos dado gratuitamente. Como? Onde? No corpo de Cristo. É por isso que “Jesus é a resposta”.
Se o espírito do Evangelho não estiver encarnado desta forma com os desejos reais dos homens e mulheres, ele estará sempre desligado daquilo que vivemos como “essencialmente humano”. Além disso, Cristo tomou nossa carne para unir-se àquilo que é essencialmente humano. Por isso, se o Evangelho não estiver encarnado com o que é essencialmente humano, ele não será essencialmente o Evangelho de Jesus Cristo.
O Evangelho do Corpo
O “núcleo do Evangelho”, de acordo com João Paulo, “é a proclamação de um Deus vivo que está perto de nós, que nos chama para uma profunda comunhão com Ele… Esta é confirmação da inseparável conexão entre a pessoa, sua vida e sua corporalidade. Tal é a apresentação da vida humana como uma vida de relacionamento”. Como conseqüência, o Papa diz que “o sentido da vida é encontrado no ato de dar e receber amor, e nesta luz, a sexualidade e procriação humanas encontram sua verdadeira e completa significância” (Evangelium Vitae, n. 81).
Nós podemos chamar esta visão profundamente encarnada de “Evangelho do Corpo”. Em uma palavra, o Evangelho é um chamado à comunhão. É isto que almejamos e é isto que nossos corpos gritam: comunhão! Como João Paulo afirma em sua carta sobre o novo milênio: “Tornar a Igreja o lar e a escola de comunhão: eis o grande desafio que nos é apresentado no novo milênio que está começando, se desejamos ser fiéis aos planos de Deus e responder aos mais profundos anseios do mundo” (n. 43).
A nova evangelização, portanto, antes de tudo não é um apelo a princípios abstratos. Se você quiser chegar a seus conhecidos, amigos e colegas, você precisará apelar para seus mais profundos anseios por comunhão. Então, baseado em sua própria experiência, você precisa testemunhar corajosamente a verdade: que “Jesus é a resposta” para seus anseios.
“Mas…”, você diz, “meus amigos e conhecidos jamais aceitarão as orientações da Igreja em matéria de sexualidade”. Isso vai depender de como você deu seu testemunho para eles.
Um Chamado para Abraçar Nossa Dignidade
O amor sexual é um reflexo da imagem do amor de Deus. A ética sexual da Igreja faz total sentido quando a compreendemos. Ela não consiste numa lista puritana de proibições. Ela é um chamado para abraçar nossa própria “dignidade”. É um chamado ao amor autêntico. Todos nós queremos isso.
Por quê, então, as pessoas rejeitam as orientações da Igreja tão prontamente? O que aconteceria se você crescesse em uma cultura onde você fosse incessantemente bombardeado com propagandas tentando lhe convencer de que o amor falsificado é o real, e a visão da Igreja fosse a falsa? Será que você não ficaria um pouco confuso?
Mas aqui está o que temos perseguido: a verdade que somos chamados a proclamar para nossos amigos e próximos já está estampada em seus corações. Ela pode estar enterrada sob camadas e mais camadas da sujeira de todas as falsificações, mas ela continua lá. Nossa função é simplesmente ajudar as pessoas a começarem a jogar fora aquelas camadas de sujeira pra que elas possam entrar em contato com seus mais profundos desejos. Nós não impomos nada às pessoas. Nós simplesmente apelamos para algo que já está nelas.
As pessoas só podem viver com falsificações por um tempo breve. Elas nunca satisfazem. De fato, elas nos machucam terrivelmente. Se você usa uma serra-elétrica para cortar seu cabelo, você poderá receber algumas escoriações, indícios de que “você não deveria ter feito aquilo”. O que quero dizer é que a verdade das orientações da Igreja sobre sexualidade é confirmada pelas feridas daqueles que não quiseram vivê-las. Nós fomos comprados com as mentiras da revolução sexual e vimos que tudo aquilo não era suficiente. É por isso que o mundo é um campo de missão, pronto para absorver a teologia do corpo. O Papa proclama uma mensagem de cura sexual, de redenção sexual. Esta é uma boa nova de grande júbilo!
Mas nós somente podemos prosseguir nesta boa nova – neste “Evangelho do corpo” – se nós formos primeiramente preenchidos e vivificados por ela. Como o Papa Paulo VI diz em sua grande encíclica sobre evangelização: “A Igreja é uma evangelizadora, mas ela começa sendo ela própria evangelizada” (n. 15). Não restam dúvidas de que, ao produzir e apresentar esta teologia do corpo, João Paulo II pretendia atingir, primeiro e principalmente, a própria Igreja.
Pouquíssimos cristãos parecem compreender que uma imagem do Evangelho está estampada em seus próprios corpos e em seu anseio por união. Inúmeros católicos têm se prendido às falsificações contemporâneas e são hostis em relação à orientação da Igreja. Por isso, a menos que a maré seja mudada dentro da própria Igreja – que a Igreja seja evangelizada antes – ela não pode evangelizar os outros.
A Analogia Esponsal e a “Analogia da Fé”
A teologia do corpo de João Paulo II fornece esperança para esta urgentemente necessária renovação dentro da Igreja. Quando nós interpretamos a mensagem do Evangelho por meio da chave da inclinação que ambos, homem e mulher, possuem para viverem em comunhão, não somente a mensagem do Evangelho toma corpo, mas mesmo o mais controverso ensinamento da Igreja – contracepção, divórcio e segunda união, homossexualidade, o sacerdócio masculino, etc., etc. – começa a fazer sentido.
A teologia esponsal demonstra de que forma todas as várias peças do quebra-cabeças do mistério cristão se encaixam com perfeita harmonia. A verdade do catolicismo surge como um “click”, quando é vista através da teologia do corpo. Em outras palavras, através da analogia esponsal nós prestamos atenção à “analogia da fé”, ou seja, à coerência que as verdades da fé possuem entre si e dentro de todo o plano da Revelação, centrado em Cristo (cf. C.I.C., §§ 90, 114 e 158).
É por isso que a teologia do corpo irá conduzir a um comovente desenvolvimento do pensamento sobre a Doutrina. É por isso que o Catecismo fala sobre a imporante conexão entre a integridade sexual, acreditando nos artigos da Doutrina, e compreendendo o mistério que professamos no Credo. Em outras palavras, o Catecismo indica a íntima conexão entre pureza de coração, amor à verdade e ortodoxia da fé (cf. §2518).
Se não for assim, como os últimos 35 anos de oposição demonstraram, o cristianismo desfaz suas costuras – sua lógica interna desmorona e virtualmente qualquer coisa que a Igreja ensina passa a ser contestada – assim que nós nos divorciamos do “grande mistério” da comunhão nupcial revelada através do corpo.
Concluindo
Se é pra “nova evangelização” ter sucesso, nós, filhos e filhas da Igreja, precisamos recuperar o senso de posse de uma mensagem urgentemente importante para a salvação do mundo. Esta mensagem é Evangelho do corpo proclamado por João Paulo II. Quão urgentemente ele é necessário! Se o futuro da humanidade passa pelo caminho do casamento e da família, podemos dizer que o futuro do casamento e da família passa pelo caminho da teologia do corpo de João Paulo II.
Simplificando: não haverá nenhuma renovação da Igreja e do mundo sem que haja antes uma renovação do casamento e da família. E não haverá nenhuma renovação do casamento e da família sem um retorno à plena verdade do plano de Deus para o corpo e para a sexualidade. Além disso, isto não irá ocorrer sem uma nova proposta teológica que demonstre forçosamente aos nossos conhecidos, amigos e colegas como a ética sexual cristã – longe da suposta lista rígida e puritana de proibições – é uma mensagem libertadora de salvação que corresponde perfeitamente aos anseios do coração humano.
É exatamente isso que a teologia do corpo de João Paulo II nos oferece. Como tal, ela nos proporciona o antídoto para a cultura da morte e um fundamento teológico para a nova evangelização. Portanto, eu apelo a você: estude a teologia do corpo do Santo Padre. Assuma a missão de compreendê-la, vivê-la e compartilhá-la com todos os teus conhecidos. Se fizermos isso, juntos, não iremos falhar na missão de renovar a face da Terra.
Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 2
sexta-feira, 18 janeiro, 2008 às 3:23 | Publicado em Teologia do Corpo | 4 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
UMA TEOLOGIA BÁSICA DO CASAMENTO
Por Christopher West
O século XX testemunhou desenvolvimentos significantes na teologia da Igreja a respeito do casamento, começando com a encíclica Casti Conubii, escrita pelo Papa Pio XI em 1930, passando pelo Concílio Vaticano II e a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, e culminando nos vários escritos e pensamentos do Papa João Paulo II. De fato, mais de dois terços de tudo o que a Igreja Católica disse sobre o casamento em seus dois mil anos de história veio à tona durante o pontificado de João Paulo II. [1]
O Concílio Vaticano II marcou a mudança de uma apresentação meramente “jurídica” do casamento, típica de muitos pronunciamentos anteriores da Igreja, para uma abordagem mais “pessoal”. Em outras palavras, ao invés de focar meramente as “obrigações”, “direitos” e “fins” do casamento, os Padres do Concílio enfatizaram como essas mesmas obrigações, direitos e fins são manifestados pelo amor íntimo e interpessoal dos esposos. “Tal amor, fundindo o humano e o divino, conduzem os esposos a uma livre e mútua doação de si mesmos, uma doação oferecendo-se a si mesmos por uma suave afeição, e por direito; tal amor permeia completamente suas vidas, crescendo mais e melhor através de sua generosidade.” [2]
Explicar de que forma o amor conjugal pode ser uma “fusão entre o humano e o divino” é a meta da teologia do casamento. Embora muito mais possa e deva ser dito do que este artigo permite[3], nós podemos ao menos apresentar uma teologia matrimonial básica. Comecemos com uma definição do casamento vinda do Vaticano II e da Lei Canônica, e depois explicaremos cada um de seus pontos.
Uma Definição de Casamento
O casamento é a íntima, exclusiva e indissolúvel comunhão de vida e de amor assumida por homem e mulher como desígnio do Criador com o propósito de seu próprio bem e da procriação e educação dos filhos; esta aliança entre pessoas batizadas foi elevada por Cristo Senhor à dignidade de um sacramento. [4]
Comunhão íntima de vida e amor: o casamento é a mais estreita e a mais íntima das afeições humanas. Ele envolve a partilha da vida inteira de uma pessoa com seu(sua) esposo(a). O casamento chama os esposos para uma mútua entrega de si mesmos um ao outro, tão íntima e completa que — sem perder sua individualidade — se tornam “um” não somente no corpo, mas também na alma.
Comunhão exclusiva de vida e amor: como uma doação mútua de duas pessoas uma à outra, esta união íntima exclui semelhante união com qualquer outra pessoa. Ela exige a total fidelidade entre os esposos. Esta exclusividade é também essencial para os filhos do casal.
Comunhão indissolúvel de vida e amor: marido e mulher não se unem apenas pela emoção ou pela simples atração erótica, a qual, egoísticamente buscada, rapidamente vão embora[5]. Eles se unem num amor conjugal autêntico pelo firme e irrevogável ato de sua própria vontade. Uma vez que seu mútuo consentimento seja consumado pela relação sexual, um inquebrável laço é estabelecido entre os esposos. Para os batizados, este laço é selado pelo Espírito Santo, e se torna absolutamente indissolúvel. Assim, a Igreja não ensina que o divórcio é errado, mas que o divórcio é impossível, independente de suas implicações civis.
Assumidos por homem e mulher: a complementariedade dos sexos é essencial para o casamento. Há tanta confusão difundida hoje em dia a respeito da natureza do casamento que alguns desejam extender o “direito legal” de se casar para duas pessoas do mesmo sexo. A verdadeira natureza do casamento torna impossível tal proposição.
Como desígnio do Criador: Deus é o autor do casamento. Ele inscreveu o chamado ao casamento em nosso próprio ser criando-nos homens e mulheres. O casamento é governado por suas leis, fielmente transmitidas por sua Noiva, a Igreja. Para o casamento ser o que ele é, ele precisa estar conforme a estas leis. O homem, portanto, não são livres para mudar qualquer significado ou propósito do casamento.
Com o propósito de seu próprio bem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ao contrário, é para o seu próprio bem, para seu benefício, enriquecimento, e finalmente, pela sua salvação, que um homem e uma mulher unem suas vidas no casamento. O casamento é a mais básica expressão da vocação para o amor que todos os homens e mulheres possuem, enquanto pessoas criadas à imagem de Deus.
E da procriação e educação dos filhos: “Por sua própria natureza, a instituição do casamento e do amor conjugal são ordenadas para a procriação e educação dos filhos, e encontrar nisso seu auge máximo”[6]. Os filhos não são acrescentados ao casamento e ao amor conjugal, mas brotam, como fruto e realização, do próprio coração da mútua doação entre os esposos. A exclusão intencional dos filhos, portanto, contradiz a própria natureza e propósito do casamento.
Aliança: uma vez que o casamento envolve um contrato legal, ele precisa se submeter à aliança matrimonial que proporciona uma estrutura mais forte e sagrada para o casamento. Uma aliança convida os esposos a compartilhar do amor livre, total, fiel e fecundo de Deus. Por isso é Deus quem, à imagem de sua própria Aliança com seu povo, une os esposos de uma forma tão ligada e tão sagrada como nenhum contrato humano poderá jamais garantir.
A dignidade de um sacramento: o casamento entre pessoas batizadas é um sinal eficaz da união entre Cristo e a Igreja e, assim, é um canal de graça (veja abaixo uma discussão mais completa). O casamento de duas pessoas não batizadas, ou entre uma batizada e outra não batizada, é considerado pela Igreja um casamento “bom e natural”. Embora não sacramentais, tais casamentos são uniões sagradas que compartilham do mesmo bem e dos mesmos propósitos do casamento sacramental.
A Centralidade do Casamento no Plano de Deus
“A Sagrada Escritura começa com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus e conclui com uma visão das ‘núpcias do Cordeiro’. As Escrituras falam do começo ao fim sobre o casamento e seu ‘mistério’, sua instituição e o significado que Deus lhe deu, sua origem e seu fim, … as dificuldades em se erguer do pecado, e sua renovação ‘no Senhor’”[7]. Do começo ao fim do Antigo Testamento, o amor de Deus por seu povo é descrito como o amor de um esposo por sua noiva. No Novo Testamento, Cristo encarnou este amor. Ele veio como o Noivo Celeste para unir-se indissoluvelmente à sua Noiva, a Igreja.
O casamento, portanto, não é uma questão periférica na vida cristã. Ele se encontra justamente no coração do mistério cristão e, por meio de sua grandiosa analogia, serve para iluminá-la. Todas as analogias são inadequadas em suas tentativas de comunicar o mistério de Deus. Porém, falando sobre casamento e família, João Paulo explica: “Neste mundo inteiro não há uma imagem mais perfeita da União e Comunidade de Deus. Não há nenhuma outra realidade humana que corresponda melhor, humanamente falando, àquele mistério divino”[8].
O Papa João Paulo II vai, até agora, mostrando que nós não podemos compreender o mistério cristão sem que tenhamos em mente o “grande mistério” envolvido na criação do homem como homem e mulher e a vocação de ambos ao amor conjugal[9]. De acordo com a analogia, o plano infinito de Deus é “se casar” conosco (cf. Os 2,19). Ele quis este plano infinito para estar tão presente para nós que ele estampou uma imagem Sua em nosso próprio ser criando-nos homens e mulheres e chamando-nos ao casamento.
Homem e Mulher: Imagem da Trindade
A pessoa humana é feita à imagem de Deus (cf. Gn 1,27). João Paulo II traz uma comovente revelação ao pensamento católico colocando esta imagem não somente em nossa humanidade enquanto indivíduos, mas também na comunhão entre homem e mulher.
Como João Paulo II diz: “Deus é amor e em Si mesmo vive um mistério de comunhão pessoal amorosa. Criando a raça humana à sua própria imagem, … Deus inscreveu na humanidade do homem e da mulher a vocação, e assim a capacidade e responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é portanto a vocação fundamental e inata de cada ser humano”. O Papa continua: “A revelação cristã reconhece duas formas específicas de se realizar a vocação da pessoa humana, em sua totalidade, para amar: o casamento, e a virgindade ou celibato. Cada uma é, em sua própria forma, uma atuação da mais profunda verdade do homem, do seu ser ‘criado à imagem de Deus[10].’”
Assim, o casamento e o celibato cristão não estão em conflito, mas são provenientes do mesmo e próprio chamado à sincera doação de si mesmo no amor “nupcial”. Cada homem é chamado, em algum sentido, a ser marido e pai. Cada mulher é chamada, em algum sentido, a ser esposa e mãe. É por isso que os termos marido, esposa, pai (padre), mãe (madre), irmão (frade, de frater) e irmã são aplicados tanto no casamento quanto na vocação celibatária. Ambos, de formas diferentes mas complementares, nos molda para que façamos parte da única família de Deus.
O casamento é um sinal terreno da realidade celeste de amor e comunhão. Quando Cristo chama alguns para o celibato “por amor ao Reino” (Mt 19,12), ele chama alguns a “pular-sela” sobre o sacramento do matrimônio, a fim de dedicar todos os seus desejos de união ao único casamento que pode satisfazer: o casamento celeste entre Cristo e a Igreja.
Casamento: Sacramento de Cristo e da Igreja
O casamento entre cristãos é um sacramento pela virtude dos batismos dos esposos. Em outras palavras, o casamento é um sinal vivo que verdadeiramente comunica o amor entre Cristo e a Igreja. Os votos dos esposos vividos em comum acordo em seu dia-a-dia, e mais especificamente em sua união “em uma só carne”, constituem este sinal vivo[11]. Como S. Paulo diz: “‘Por esta razão o homem deve deixar seu pai e sua mãe e unir-se à sua esposa, e os dois devem se tornar uma só carne’. Este é um grande mistério, eu quero dizer no que se refere a Cristo e a Igreja” (Ef 5,31-32).
Uma vez que a união “em uma só carne” entre homem e mulher prefiguram Cristo e a Igreja desde “o princípio”, João Paulo II fala do casamento como o sacramento primordial. “Todos os sacramentos da nova aliança encontram, de certa forma, seu protótipo no casamento”, diz o Santo Padre[12]. É por isso que o Batismo é um “banho nupcial”[13] e a Eucaristia é “o Sacramento do Noivo e da Noiva”[14]. Quando nós recebemos o corpo de Cristo dentro de nós mesmos, de uma forma misteriosa, como uma noiva, nós concebemos nova vida em nós mesmos — vida no Espírito Santo. É este mesmo Espírito Santo que forma o laço que une os esposos no Sacramento do Matrimônio.
Este é o “mistério profundo” do qual o casamento participa. A Eucaristia, então, é a própria origem do matrimônio cristão. “No dom Eucarístico da caridade a família cristã encontra o fundamento e a alma de sua ‘comunhão’ e sua ‘missão’”[15], isto é, amar como Deus ama.
O Enlace Matrimonial
A livre troca de consentimento adequadamente testemunhada pela Igreja estabelece o laço matrimonial. A união sexual a consuma — sela, completa, aperfeiçoa. A união sexual, portanto, é onde as palavras dos votos matrimoniais tomam corpo. A própria “linguagem” que Deus inscreveu na relação sexual é a linguagem da aliança matrimonial: a livre concordância com uma união de amor indissolúvel, fiel e aberta aos filhos.
Se os esposos intencionalmente contrariam qualquer desses bens do casamento em suas expressões sexuais, a intimidade matrimonial se torna menor do que Deus quis que ela fosse. Então os esposos, ao invés de renovar seus votos através da relação, contradizem-nos. Em termos práticos, quão saudável seria um casamento em que os esposos fossem regularmente infiéis aos seus votos? Por outro lado, quão saudável seria um casamento se os esposos regularmente renovassem seus votos, expressando uma sempre crescente concordância a eles?
Os freqüentemente contestados ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual se tornam lúcidos quando vistos desta ótica. Como todas as realidades sacramentais, quanto mais a união sexual (como expressão consumada do sacramento do matrimônio) verdadeiramente comunicar o amor e a vida de Deus, mais corretamente irá simbolizá-los.
A união sexual que é livre, total, fiel e aberta à nova vida (ou seja, a união sexual que verdadeiramente expressa os votos matrimoniais) simboliza e participa da comunhão entre Cristo e sua Igreja. Masturbação, fornicação, adultério, sexo voluntariamente estéril, atos homossexuais, etc. — nada disso simboliza corretamente o amor entre Cristo e a Igreja, e portanto nunca leva a participar deste amor. Nenhum desses comportamentos são matrimoniais, ou seja, dignos de esposos. Assim, para que uma união sexual possa consumar um matrimônio, ela precisa ser realizada de uma “maneira humana” e ser “por si mesma apropriada à geração de filhos”[16].
O Casamento e a Ruptura Causada Pelo Pecado
Esta visão sublime do casamento freqüentemente encontra muito cinismo e resistência. Quando Jesus proclamou a natureza permanente do casamento, mesmo seus discípulos lhe disseram: “Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar” (Mt 19,10).
A experiência universal demonstra que o casamento é ornado por dificuldades. “De acordo com a fé, a desarmonia que percebemos tão dolorosamente não é proveniente da natureza do homem e da mulher, nem da natureza de suas relações, mas do pecado. Como uma ruptura com Deus, o primeiro pecado teve como primeira conseqüência a ruptura da comunhão original entre homem e mulher.”[17]
A História atesta a pungente narração do Gênesis, confirmando que a destruição que foi realizada no relacionamento sexual é resultado de nossa desobediência a Deus. As diferenças entre homem e mulher, ao invés de completarem-se um ao outro e trazê-los à comunhão, são freqüentes causas de tensão e divisão. A própria atração sexual, dada originalmente por Deus para ser nossa força motriz para amar como Ele ama, é inclinada a se tornar — por causa do pecado — um desejo de auto-satisfação às custas de alguém.
Tudo isso impinge profundas feridas pessoais em maridos, esposas e em seus filhos que, por isso, freqüentemente crescem e acabam repetindo as mesmas falhas que seus pais cometeram em suas próprias relações. Por isso, torna-se fácil perder a fé no casamento. Mesmo Moisés reconheceu a fraqueza humana e permitiu o divórcio. Também Jesus diz: “É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o divórcio”. Mas então ele acrescenta que “no princípio não era assim” (Mt 19,8).
Cristo é capaz de restaurar o plano original de Deus para o casamento de acordo com a norma porque, diferente de Moisés, Cristo é capaz de remover nossa “dureza de coração”. Seu milagre nas bodas de Caná conta a história de uma redenção matrimonial. Se o casal tiver “esgotado o vinho” necessário para viver o casamento de acordo com o plano original de Deus, Cristo vem ao mundo e “repõe o vinho” com superabundância (cf. Jo 2).
Um Convite à Conversão
Se os homens e mulheres permanecem vivendo o casamento como Deus o quis “desde o princípio”, eles precisam renunciar conscientemente a tudo que for contrário ao plano divino e continuamente renderem-se à graça da redenção. A cruz de Cristo, portanto, encontra-se no centro da teologia eclesial sobre o matrimônio.
Uma vez que homem e mulher se afastaram de Deus por seu corrompido relacionamento no paraíso, faz sentido dizer que restaurar o casamento requer um retorno radical a Deus. Assim, uma autêntica teologia do casamento não é meramente informativa mas, acima de tudo, transformadora. Ela convida os casais a uma vida de contínua conversão pessoal. Somente renunciando a si mesmos, tomando suas cruzes e seguindo Cristo é que os esposos podem viver as verdadeiras alegrias do casamento que Deus ardentemente desejou despejar sobre eles.
O casamento e a vida familiar encontram-se, como explica João Paulo II, “no centro do grande combate entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, entre o amor e tudo o que lhe é oposto.”[18] Viver a verdade sobre o casamento, portanto, é um combate bem difícil, mesmo para aqueles que possuem sólida formação moral. Este combate traz ao nosso coração a “batalha espiritual” (Ef 6,12) que precisamos combater como cristãos se quisermos resistir ao mal (no mundo e em nós mesmos) e amar-nos uns aos outros como Cristo ama sua Noiva, a Igreja.
Boas Novas para o Mundo
A História fala sobre nações inteiras separando-se da Igreja por causa de contendas a respeito da natureza e do sentido do casamento. Em face à feroz perseguição e resistência, mesmo em nossos próprios dias, a Igreja continua firme em seus ensinamentos. Por quê a Igreja é tão obstinada? Porque o casamento é o sacramento primordial do amor de Deus. Diminuir, de qualquer forma, a natureza e o sentido do amor matrimonial é diminuir a natureza e o sentido do amor de Deus.
Os ensinamentos da Igreja sobre o casamento podem parecer quase impossíveis de se viver. “Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível” (Mt 19,26). Quando entregamos nossas vidas à graça da redenção, é perfeitamente possível conhecer a alegria e a liberdade que são frutos do viver e amar de acordo com nossa verdadeira dignidade como homens e mulheres criados à imagem e semelhança de Deus. É verdadeiramente possível para homens e mulheres, maridos e esposas, experimentar a restauração do correto equilíbrio e mútua doação de si mesmos em seus relacionamentos.
Esta é a Boa Nova do Evangelho. O Espírito Santo foi derramado em nossos corações (Rm 5,5). O Espírito do amor faz a cruz de Cristo frutificar em nossas vidas capacitando-nos para viver a verdade completa do casamento. A Igreja nunca cessa de proclamar esta Boa Nova para a salvação de cada homem e mulher.
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[1] “Teologia do Corpo” de João Paulo II – uma coleção de 129 audiências proferidas entre setembro de 1979 e novembro de 1984 – João Paulo II fornece a mais extensa teologia bíblica do casamento.
[2] Gaudium et Spes, n. 49
[3] Para saber mais veja os livros de Christopher West, Good News About Sex &
Marriage (Servant, 2000) and Theology of the Body Explained (Pauline, 2003).
[4] Cf. Gaudium et Spes, n. 48 e Cód. de Direito Canônico, Can. 1055
[5] Cf. Gaudium et Spes, n. 49
[6] Gaudium et Spes, n. 48
[7] Catecismo da Igreja Católica, n. 1602
[8] Homilia na Festa da Sagrada Família, 30 de dezembro de 1988
[9] Cf. Carta às Famílias, n. 19
[10] Familiaris Consortio, n. 11
[11] Cf. João Paulo II, Audiência Geral de 05/01/1983
[12] Audiência Geral de 20/10/1982
[13] Catecismo da Igreja Católica, n. 1617
[14] Mulieris Dignitatem, n. 26
[15] Familiaris Consortio, n. 57
[16] Canon 1061
[17] Catecismo da Igreja Católica n. 1606, 1607
[18] Carta às Famílias, n. 23
Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 1
sexta-feira, 11 janeiro, 2008 às 10:48 | Publicado em Teologia do Corpo | 8 ComentáriosTags: amor, catolicismo, Família, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
O QUE É A TEOLOGIA DO CORPO E POR QUÊ ELA ESTÁ MUDANDO TANTAS VIDAS?
Por Christopher West
“É ilusão pensar que podemos construir uma verdadeira cultura de vida humana se não… aceitarmos e vivenciarmos a sexualidade, o amor e a vida como um todo de acordo com seus verdadeiros significados e finalidades.”
João Paulo II, O Evangelho da Vida (n. 97).
A dimensão sexual é a rocha de fundamentação da vida humana. A família — e, por isso, a própria sociedade humana — emerge dessa dimensão. Em resumo, como o sexo flui, fluem o casamento e a família. Como o casamento e a família fluem, flui a civilização.
Esta lógica parece soar bem para a nossa cultura. Não é exagero dizer que a meta do século XX foi libertar-se da ética sexual cristã. Se desejamos edificar uma “cultura da vida”, a meta do século XXI deve ser corrigir isto.
Mas a abordagem freqüentemente repressiva dos cristãos das gerações passadas (normalmente o silêncio ou, no máximo, “não faça isso”) é amplamente responsável pela rejeição cultural aos ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade. Precisamos de uma “nova linguagem” para romper o silêncio e reverter a negatividade. Precisamos de uma teologia nova que explique como a ética sexual cristã — longe da puritana lista de proibições na qual supostamente se tornou — corresponde perfeitamente aos anseios mais profundos dos nossos corações por amor e união.
Como muitas pessoas somente agora estão descobrindo, o Papa João Paulo II dedicou a primeiro grande projeto de catequese de seu pontificado ao desenvolvimento de tal teologia; ele a chama de “teologia do corpo”. Esta coleção de 129 pequenas audiências já iniciaram uma “contra-revolução sexual” que está mudando vidas ao redor do mundo. O “fogo” está se alastrando e podemos esperar para breve repercussões globais.
George Weigel, um biógrafo do Papa, disse muito bem ao descrever a teologia do corpo como “um tipo de bomba relógio teológica programada pra explodir com conseqüências dramáticas… talvez no século XXI” (Witness to Hope, 343).
Uma Resposta para Nossas Questões Universais
Focando a beleza do plano divino para a união dos sexos, João Paulo levou a discussão do legalismo (“Até onde eu posso ir sem infringir a lei?”) para a liberdade (“Qual é a verdade que me torna livre para amar?”). A verdade que nos torna livres é a salvação em Jesus Cristo. Não importa quais erros ou quais pecados tenhamos cometido. A teologia do corpo do Papa não aponta o dedo pra ninguém. É uma mensagem de salvação sexual para toda e qualquer pessoa.
Resumindo, através de uma detalhada reflexão das Escrituras, João Paulo procura responder duas das mais importantes e universais questões: (1) “O que significa ser um humano?” e (2) “Como viver minha vida de uma forma que traga verdadeira felicidade e plena satisfação?”. O ensinamento do Papa, portanto, não fala apenas sobre sexo e casamento. Uma vez que nossa criação como masculino e feminino é o “fato fundamental da existência humana” (13/02/1980), a teologia do corpo fornece “o redescobrimento do significado da totalidade da existência, o sentido da vida” (29/10/1980).
Para responder à primeira questão — “O que significa ser um humano?” — o Papa segue o convite de Cristo para meditar sobre os três diferentes “estágios” da experiência humana da sexualidade e do corpo: em nossa origem antes do pecado (cf. Mt 19,3-8); em nossa história manchada pelo pecado e já redimida em Cristo (cf. Mt 5,27-28); e em nosso destino, quando Deus erguerá nossos corpos em glória (cf. Mt 22,23-33).
Em resposta à segunda questão — “Como devo viver minha vida?” — João Paulo aplica seu característico “humanismo cristão” para as vocações do celibato e do casamento. Ele então conclui demonstrando como seu estudo propõe uma nova e vitoriosa explicação do ensinamento da Igreja sobre a moral sexual.
Vamos dar uma breve olhada em cada uma das diferentes seções do ensinamento do Papa. É claro que, em uma pequena introdução como esta, estamos apenas arranhando a superfície dos profundos conhecimentos do Papa. Vamos iniciar com sua idéia principal.
Por quê o Corpo é uma “Teologia”?
De acordo com João Paulo II, Deus criou o corpo como um “sinal” de seu divino mistério. Esta é a razão pela qual ele fala do corpo como uma “teologia”, um estudo de Deus.
Nós não podemos ver Deus. Sendo Espírito, Ele é invisível. Entretanto o cristianismo é a religião da auto-revelação de Deus. Em Cristo, “Deus revelou seu mais íntimo segredo: o próprio Deus é uma relação infinita de amor, Pai, Filho e Espírito Santo, e Ele nos destinou a participar desta relação” (C.I.C., §221). Por alguma razão o corpo humano torna este eterno mistério de amor visível para nós.
Como? Especificamente através da beleza da diferença sexual e nossa chamada à união. Deus designou a união dos sexos como a “versão criada” de sua própria “relação infinita de amor”. E justamente desde o início, a união entre homem e mulher prefigura nosso destino eterno de união com Cristo. Como diz São Paulo, a união “em uma só carne” é “um grande mistério, eu quero dizer em referência a Cristo e sua Igreja” (Ef 5,31-32).
A Bíblia usa o amor matrimonial mais do que qualquer outra imagem para nos ajudar a entender o plano infinito de Deus para a humanidade. Deus quer “se casar” conosco (cf. Os 2,19) — para viver conosco em uma “infinita relação de amor”. E ele quis que este grande “plano matrimonial” fosse tão claro e tão óbvio pra nós que ele imprimiu uma imagem de Si mesmo em nosso próprio ser, criando-nos masculino e feminino e convidando-nos à comunhão em “uma só carne”.
Portanto, em um comovente desenvolvimento do pensamento católico, João Paulo conclui que nós espelhamos Deus não somente como indivíduos, “mas também através da comunhão… a qual homem e mulher formam desde o princípio”. E o Papa acrescenta: “de tudo isso, desde ‘o princípio’, descende a graça da fertilidade” (14/11/1979). A vocação original de ser “fecundo e se multiplicar” (Gen 1,28), então, não passa de um convite para viver conforme à imagem daquilo em que fomos feitos — o amor, da forma como Deus ama.
É óbvio que isto não significa que Deus é “sexual”. Nós usamos o amor matrimonial apenas como uma analogia que nos ajuda a compreender um pouco do divino mistério (cf. C.I.C., §370). O “mistério de Deus permanece transcendente em relação a esta analogia como em relação a qualquer outra analogia” (29/09/1982). Ao mesmo tempo, contudo, o Papa diz que “não há nenhuma outra realidade humana que corresponda melhor, humanamente falando, com aquele mistério divino” (30/12/1988).
A Experiência Original do Corpo e do Sexo
Nós tendemos a pensar que a “guerra” entre os sexos é normal. Em sua discussão com os fariseus, Jesus chama atenção para o fato de que “no começo não era assim” (Mt 19,8). Antes do pecado, homem e mulher experimentavam sua união como uma participação no amor infinito de Deus. Este é o modelo pra todos nós, e embora nós o tenhamos perdido, Cristo nos concede a verdadeira capacidade de reconquistá-lo.
A história bíblica da criação usa uma linguagem simbólica para nos auxiliar na compreensão de profundas verdades sobre nós mesmos. Por exemplo, o Papa observa que aquela sua união original brota da solidão do ser-humano. No princípio o homem estava “só” (cf. Gn 2,18). Dentre os animais, não havia nenhum que “lhe fosse ajuda adequada” (Gn 2,20). Aí está a base desta “solidão” — sentimento comum a homem e mulher — que sentimos nesta ânsia por união.
O ponto é que essa união sexual humana difere radicalmente do acasalamento dos animais. Se fossem iguais, Adão teria encontrado “ajuda” com fartura entre os animais. Mas nomeando os animais ele notou que ele era diferente; somente ele foi uma pessoa chamada a amar à imagem de Deus. Avistando a mulher o homem imediatamente declara: “Agora sim vejo osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23). Ele quis dizer, “finalmente, uma pessoa que eu posso amar”.
Como ele sabia que ela também era uma pessoa chamada a amar? Seu corpo nu revelou o mistério! Pela pureza do coração, a nudez revela o que João Paulo II chama de “o sentido nupcial do corpo”. Esta é “a capacidade que o corpo tem de expressar amor: precisamente aquele amor no qual a pessoa se torna dom e — por meio deste dom — realiza o sentido pleno de seu ser e sua existência” (16/01/1980).
Sim, o Papa diz que se vivermos de acordo com a verdade sobre a nossa sexualidade, nós cumprimos o verdadeiro sentido da vida. O que é isso? Jesus o revela quando ele diz, “este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros como Eu vos tenho amado” (Jo 15,12). Como Jesus nos ama? “Este é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19). Deus criou o desejo sexual como potência para amar como Ele ama. E esta é a forma como o primeiro casal vivenciou este amor. Por isso, eles “estavam ambos nus, e não se envergonhavam” (Gn 2,25).
Não há vergonha nenhuma no amor; “o amor perfeito lança fora o temor” (1Jo 4,18). Vivendo completamente de acordo com o sentido nupcial de seus corpos, eles viram e sentiram um ao outro “com toda a paz de seu olhar interior, o qual cria a plenitude da intimidade entre as pessoas” (02/01/1980).
A Experiência Histórica do Corpo e do Sexo
O pecado original causou a “morte” do amor divino no coração humano. O surgimento da vergonha indica a origem da concupiscência, do desejo erótico vazio do amor de Deus. Homens e mulheres da história agora tendem a buscar “a sensação da sexualidade” dissociada da verdadeira dádiva de si mesmos, dissociada do autêntico amor.
Nós cobrimos nossos corpos não porque eles sejam maus, mas para proteger seu bem inerente da degradação da concupiscência. Uma vez que sabemos que fomos feitos para o amor, sentimo-nos instintivamente “ameaçados” não somente pelo comportamento abertamente luxurioso, como também por um “olhar luxurioso”.
As palavras de Cristo são severas em relação a isto. Ele insiste que se nós olharmos com luxúria para outros, já teremos cometido adultério em nossos corações (cf. Mt 5,28). João Paulo propõe a questão: “Nós temos temor da severidade dessas palavras? Ou ao contrário, confiamos em seu poder salvífico?” (08/10/1980). Estas palavras tem poder para salvar-nos porque o homem que as revela é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).
Cristo não morreu e surgiu dos mortos simplesmente para nos dar mecanismos contra o pecado. “Jesus veio restaurar a criação à pureza de suas origens” (C.I.C., §2336). Conforme nos abrimos à obra da redenção, a morte e ressurreição de Cristo efetivamente “liberta nossa liberdade da dominação da concupiscência”, como expressa João Paulo (01/03/1984).
Deste lado do céu, sempre somos capazes de perceber uma batalha em nossos corações entre o amor e a concupiscência. Entretanto, João Paulo insiste que “a redenção do corpo” (cf. Rm 8,23) já está trabalhando nos homens e mulheres da história. Isto significa que deixando nossa concupiscência ser “crucificada com Cristo” (cf. Gal 5,24), podemos progressivamente redescobrir o erotismo daquele “sentido nupcial dos nossos corpos” e vivê-lo. Esta “libertação da concupiscência” e a liberdade que ela concede é, de fato, “a condição de toda vida unida à verdade” (08/10/1980).
A Experiência Máxima do Corpo e do Sexo
Mas e quanto à nossa vivência do corpo na ressurreição? Cristo não disse que nós não nos daremos mais em casamento quando ressurgirmos dos mortos (cf. Mt 22,30)? Sim, mas isto não significa que nosso anseio por união acabará. Significa que ele será plenamente satisfeito. Como um sacramento, o casamento é somente um sinal terreno da realidade celeste. Nós não precisaremos mais de sinais para apontar-nos para o céu quando já estivermos lá no céu. As “núpcias do Cordeiro” (Ap 19,7) — a união de amor que nós todos desejamos — estará eternamente consumada.
“Para o homem, esta consumação será a realização máxima da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação. (…) Os que estiverem unidos a Cristo formarão a comunidade dos remidos, a ‘cidade santa’ de Deus, ‘a Esposa do Cordeiro’” (C.I.C., §1045). Esta realidade eterna é o que a união “em uma só carne” representa desde o início (cf. Ef 5,31-32).
Portanto, na ressurreição do corpo redescobrimos — em uma dimensão infinita — o mesmo sentido nupcial do corpo no encontro com o mistério da vivência face a face com Deus (09/12/1981). “Esta será uma experiência completamente nova”, diz o Papa — além do que qualquer um de nós poderia imaginar. Além disso, “não será de nenhum modo estranha àquela experiência da qual o homem toma parte ‘desde o princípio’, e nem ao que diz respeito à dimensão procriativa do corpo e do sexo” (13/01/1982).
As Vocações Cristãs
Observando “quem somos nós” em nossa origem, história e destino, abrimos as portas para um adequado entendimento das vocações cristãs do celibato e do casamento. Ambas vocações são autênticas “vivências” da mais profunda verdade sobre quem somos nós enquanto homens e mulheres.
Quando vivido de forma autêntica, o celibato cristão não é uma rejeição da sexualidade e seu chamado à união. Ele na verdade aponta para sua máxima realização. Aqueles que sacrificam o casamento “pela causa do Reino” (Mt 19,12) assim o fazem para dedicar todas as suas energias e desejos ao único casamento que é capaz de satisfazer — o casamento entre Cristo e sua Igreja. De certo modo, eles estão “pulando” o sacramento (o sinal terreno) em antecipação da realidade última. Fazendo isso, homens e mulheres celibatários declaram ao mundo que o Reino de Deus está aqui (cf. Mt 12,28).
De uma forma diferente, o casamento também antecipa o céu. “Nas alegrias de seu amor Deus dá o casamento aqui na terra como um antegozo do festim de núpcias do Cordeiro” (C.I.C., §1642). Por quê, então, tantos casais vivem o casamento como se estivessem “vivendo no inferno”? Para que o casamento possa trazer a felicidade, os esposos precisam vivê-lo como Deus queria “desde o princípio”. Isto significa que eles precisam lutar diligentemente com os efeitos do pecado.
O casamento não justifica a luxúria, a concupiscência. Como sacramento, o casamento destina-se a simbolizar a união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,31-32). O corpo possui uma “linguagem” que se destina a expressar o amor livre, total, fiel, e fecundo de Deus. É exatamente com isso que os esposos se comprometem no altar. “Vocês vieram aqui por livre e espontânea vontade”, o padre pergunta, “para darem-se um ao outro sem reservas? Vocês prometem ser fiéis até a morte? Vocês prometem receber com amor os filhos que Deus vos der?”. Noiva e noivo respondem: “Sim”.
Portanto, os esposos são destinados a expressar este mesmo “sim” com seus corpos uma vez que se tornam uma só carne. “Certamente as próprias palavras ‘Eu te recebo como minha esposa – meu marido’”, diz o Papa, “somente podem ser realizadas por meio da relação conjugal” (05/01/1983). A união sexual é destinada a ser a renovação dos votos matrimoniais.
Um Novo Contexto para Entender a Moralidade Sexual
A ética sexual da Igreja começa a fazer sentido quando vistas através desta ótica. Ela não se trata de uma lista puritana de proibições. É um convite a abraçar nossa própria “grandeza”, nosso própria dignidade divina. É um convite a viver o amor para o qual fomos criados.
Sendo um profeta aquele que proclama o amor de Deus, João Paulo II descreve o corpo e a união sexual como “proféticos”. Mas, ele acrescenta, precisamos ser cuidadosos no distinguir entre verdadeiros e falsos profetas. Se podemos dizer a verdade com nossos corpos, também podemos dizer mentiras. No final das contas, todas as questões sobre moral sexual caem em uma única questão: ela espelha, verdadeiramente, a imagem do amor livre, total, fiel e fecundo de Deus ou não?
Em termos práticos, quão saudável seria um casamento se os esposos fossem freqüentemente infiéis aos seus votos matrimoniais? Por outro lado, quão saudável seria um casamento se os esposos regularmente renovassem seus votos, expressando uma sempre crescente concordância com eles? Esta é a base dos ensinamentos da Igreja em matéria de moralidade sexual.
Masturbação, fornicação, adultério, sexo voluntariamente estéril, atos homossexuais, etc. — nada disso espelha esta imagem do amor livre, total, fiel e fecundo de Deus. Nenhum desses comportamentos expressam a renovação dos votos matrimoniais. Eles não são maritais. Isto significa que as pessoas que se comportam assim são “intrinsecamente más”? Não. Eles são apenas pessoas confusas sobre como satisfazer seu genuíno desejo por amor.
Se eu te oferecer um cheque real de um milhão de dólares e um cheque falsificado de um milhão de dólares, qual você iria preferir? Pergunta estúpida, penso eu. Mas e se você fosse educado em uma cultura em que fosse incessantemente bombardeado com propagandas tentando te convencer de que o falsificado fosse o real, e o real fosse o falsificado? Poderia ser que você estivesse um pouco confuso?
A Autêntica Libertação Sexual
Por quê tanta propaganda? Se há um inimigo que deseja nos manter afastados do céu, e se o corpo e o sexo se destinam a apontar-nos para o céu, o que você acha que este inimigo iria atacar? A tática do pecado é “distorcer” e “desorientar” nosso desejo de união eterna. Isso é tudo que ele pode fazer. Quando entendemos isto, percebemos que a confusão sexual tão predominante em nosso mundo e em nossos próprios corações não passam de um desejo humano pelo céu, porém de forma frenética.
Mas a maré está mudando. As pessoas só podem se iludir com os falsificados por um período breve. Eles não somente falham em satisfazer, como nos fadigam terrivelmente. Infelizmente, a verdade dos ensinamentos da Igreja sobre sexo é confirmada nas feridas daqueles que não procuraram vivê-los. Nossas buscas por amor, intimidade e liberdade são positivas. Mas a revolução sexual nos vendeu gato por lebre. Nós não fomos “libertados”. Fomos enganados, traídos e nos tornamos carentes.
É por isso que o mundo é um campo de missão pronto para absorver a teologia do corpo de João Paulo II. E é por isso que ela já está mudando tantas vidas mundo afora. O ensinamento do Papa nos ajuda a distinguir entre o verdadeiro e o falso cheque de um milhão de dólares. Ele nos ajuda a “desentortar” nossos desejos desordenados e nos orienta rumo ao amor que satisfaz verdadeiramente.
Conforme isso acontece, nós entendemos os ensinamentos da Igreja não como um peso imposto “de fora”, mas como uma mensagem de salvação que vem exatamente “de dentro”. Entendemos a verdade que nos liberta. Em outras palavras, experimentamos o que a revolução sexual prometeu mas não pôde cumprir: nos dar a autêntica libertação sexual.
Oração pela Pureza de Coração
Senhor, ajuda-me a aceitar e acolher minha sexualidade como um presente Teu. Concede-me a graça de resistir às muitas mentiras que distorcem o dom divino e ajuda-me a viver minha sexualidade de acordo com o amor que se doa. Concede-me a pureza de coração para que eu possa ver a imagem de sua glória na beleza dos outros, e um dia Te veja face a face. Amém.
Oração pela Redenção do Desejo Sexual
Senhor, eu Te louvo e agradeço pelo dom do meu desejo sexual. Pelo poder de Sua morte e ressurreição, desfaça o emaranhado que o pecado fez em mim de forma que eu possa saber e viver o desejo sexual da forma como o Senhor o criou — como desejo de amar livremente, totalmente, fielmente e fecundamente. Amém.
Oração para Momentos de Tentação da Concupiscência
Senhor, agradeço pela beleza desta pessoa que o Senhor criou pra ser amada, e não pra ser tratada como um objeto para minha própria satisfação sexual. Eu renuncio a qualquer tendência, dentro de mim, de usar esta pessoa para meu próprio prazer, e peço que o Senhor corrija meus desejos. Amém.
Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
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